segunda-feira, 20 de abril de 2020

Vou morar em São Saruê

lá não tem isolamento social nem Covid-19



Folheto Manoel Camilo das Santos 1981
Sonhei que estava indo para o país de São Saruê. Foi uma viagem longa de sete dias e sete noites, passei por várias cidades, por estradas cobertas de neve, atravessei um grande deserto, depois uma floresta tropical até chegar ao semiárido do Nordeste brasileiro. Dei muitas voltas por mais de três dias e três noites e não encontrei esse país encantado. Foi mais um pesadelo na madrugada de isolamento social e medo do Covid-19 me pegar.
Mas, onde será que fica esse país tão bom de morar? Quem sabe onde fica o caminho para São Saruê? Não localizo pelo GPS e lá também não tem sinal de celular. Meu Deus! Mostre o caminho para chegar a São Saruê, eu quero lá ficar até que passe esta pandemia que fez o mundo parar. Não tem jeito, São Saruê é um lugar que só existe no imaginário da cultura popular e do nosso folclore.
Não tem passaporte nem visto de entrada e sendo assim fico aqui mesmo no meu isolamento social tentando escapar já que sou do grupo de risco e tenho que me cuidar. Mas, depois que tudo isso passar vou continuar procurando até encontrar esse país imaginário bom de se morar.  


As possíveis origens desse lugar encantado


Na Europa medieval surgiram narrativas tradicionais orais transmitidas de geração em geração que contavam a lenda de um povo que morava num lugar imaginário, provavelmente localizado no Norte da França. Quem vivia nesse lugar maravilhoso tinha liberdade de sair de casa a qualquer hora, não passava fome, não precisava trabalhar, estava livre de todas as doenças e não ficava esperando a morte chegar.
Esse lugar maravilhoso chama-se Cocanha, criado provavelmente por volta dos séculos XII e XIII quando o Velho Mundo passou por importantes transformações socioculturais, econômicas, políticas, religiosas e de grandes mobilidades dos diferentes povos na propagação do Cristianismo pelas Cruzadas e pelos Peregrinos rumo aos lugares sagrados. 
A narrativa desse lugar imaginário percorreu cidades, aldeias, comunidades rurais e foi enriquecendo as lendas, os contos, as músicas, as poesias da tradição popular e do folclore na Europa medieval. As lendas que contavam a vida dos moradores desse lugar fabuloso, onde todos viviam felizes, em harmonia com a natureza, com muito amor, paz e sossego percorreram, durante séculos, a Europa e chegaram muito tempo depois a quase todas as partes do mundo, inclusive ao Novo Mundo. 
O povo por onde passava contava as histórias desse lugar encantado e que atravessaram a Europa pelas extensas redes orais de comunicação, nas múltiplas estruturas narrativas das tradições populares que foram, no decorrer de tempo, incorporando novos conhecimentos e novas experiências locais.
E como quem conta um conto sempre aumenta um ponto, os boatos do lugar encantado foram crescendo e cada vez mais o desejo do povo daquela época – Idade Média – era de um dia poder viver lá para se livrar da vida cotidiana do mundo verdadeiro (doenças, fome, guerra, morte etc.).
Assim, essa história contada de boca em boca por várias gerações, anos depois chega a Santiago de Compostela e expande-se por toda a Península Ibérica. Séculos depois atravessou o Atlântico e chegou provavelmente ao Brasil no período dos grandes descobrimentos por volta dos séculos XVI e XVII. Consolida-se como texto tradicional de comunicação popular e do folclore no Nordeste no início do século XX e continua viva no imaginário do povo brasileiro em pleno século XXI, nas diferentes expressões culturais tradicionais e especialmente na literatura de cordel.  


São Saruê: um país utópico no sertão nordestino


Mas, não podemos afirmar com precisão como as narrativas sobre esse lugar das mil e uma fantasias chegaram ao Brasil, se foi com os colonizadores portugueses, espanhóis, holandeses ou até mesmo pelos franceses que estiveram, por maior ou menor tempo no território brasileiro. Todos esses povos eram portadores de diferentes narrativas desse lugar imaginário cheio de encantamentos, de maravilhas e da juventude eterna.
Os modos de pensar e agir de muitos nordestinos, principalmente do homem do Sertão, conservam características desse jeito de ser do homem medieval, sua cultura e sua convivência com as diversidades (seca, enchente, fome, fartura, violência, pobreza, doença, analfabetismo, festa, morte e muita fé religiosa). E assim, o sertanejo vive na esperança, na fé que um dia tudo vai melhorar e esse lugar encantado cheio de simbolismo funciona como um contra ponto da vida cotidiana do mundo verdadeiro para viver o cotidiano de um mundo ficcional. Mas, não significa dizer que o nordestino ou o sertanejo não seja trabalhador, lutador e resistente às diversidades da vida cotidiana do mundo real, muito pelo contrário, os lugares encantados, utópicos narrados nas manifestações culturais tradicionais do povo nordestino estão cheios de simbolismos irônicos, satíricos, cômicos e críticos das injustiças sociais e econômicas.
São essas diversidades persistentes há séculos no Nordeste que o tornam até hoje um território fértil de repertórios de narrativas medievais, que são atualizadas e veiculadas nas redes tradicionais de comunicação popular e do folclore, contadas e cantadas nas festas religiosas e profanas. E como não poderia deixar de ser esses valores culturais estão fortemente expressos na literatura de cordel onde entre as inúmeras abordagens temáticas vamos encontrar o da Cocanha ou do lugar encantado de São Saruê.
Em épocas passadas as narrativas dos acontecimentos nesse lugar encantado eram quase exclusivamente articuladas pelas redes orais de comunicação presentes nos mitos, nas lendas e fábulas, nas poesias, nas músicas e danças, nos dramas e comédias. Na atualidade essas narrativas vão incorporando significados de diferentes pontos de vista, novos conhecimentos e novas experiências agora articuladas pela oralidade, pela escrita e pelo audiovisual. Melhor dizendo, são narrativas da tradição cultural incorporadas às redes de comunicação veiculadas em livro, televisão, filme, redes sociais e em tantas outras ferramentas midiáticas, porque são temáticas carregadas de conteúdos de desejos, de alegorias e consequentemente de importante interesse da demanda de consumo popular.


A Viagem a São Saruê: um lugar de encantamento


As narrativas contadas desse país habitado por povo feliz rompem a barreira do tempo, viajam por muitos lugares, no carro da brisa, transformam-se em cordel, um dos mais vendidos no Nordeste brasileiro, pela veia poética do paraibano Manoel Camilo dos Santos.
Quando escreveu e publicou o folheto Viagem a São Saruê, na primeira metade do século passado, Manoel Camilo reacendeu no imaginário coletivo do povo nordestino o desejo de viajar um dia para esse lugar lendário que ele ouvia falar desde pequenino. Assim, o poeta narra a sua longa viagem a São Saruê:
Gravura de José Costa Leite. Folheto 1977
Iniciei a viagem
as quatro da madrugada
tomei o carro da brisa
passei pela alvorada
junto do quebrar da barra
eu vi a aurora abismada (...)
Avistei uma cidade
como nunca vi igual
toda coberta de ouro
e forrada de cristal
ali não existe pobre
é tudo rico em geral. 


A identificação da cidade é uma placa de barra de ouro e com letras cravadas de brilhantes dizendo: São Saruê é este lugar aqui. Em São Saruê não tem desigualdade de classe todos são ricos, não existe déficit de habitação, só tem casa de luxo para morar:

Gravura do Folheto de 1981
Uma barra de ouro puro
servindo de placa eu vi
com as letras de brilhante
chegando mais perto eu li
dizia: São Saruê
é este lugar aqui (...).

Lá os tijolos das casas
são de cristal e marfim
as portas barras de pratas
fechaduras de “rubim”
as telhas folhas de ouro
e o piso de cetim.


 
Neste país encantado não há fome, é um lugar cheio de fartura, nos rios corre leite, tem açudes de vinho e as barreiras de carne assada, as lagoas de mel de abelha, os atoleiros de coalhada, os montes de carne guisada, as pedras são de queijo e rapadura, feijão dá feito mato e já cozinhado. Em São Saruê roupas, chapéus sapatos e dinheiro são coisas que brotam nas árvores. Não existe analfabetismo, as crianças já nascem falando e sabendo ler. Assim, continua Manoel Camilo narrando o que viu:  

Gravura de José Costa Leite. Folheto 1977
Sítios de pés de dinheiro
que faz chamar atenção
os cachos de notas grandes
chega arrastam pelo chão
as moitas de prata e ouro
são mesmo que algodão (...)

Lá quando nasce um menino
não ‘dar’ trabalho a criar
já é falando e já sabe
ler, escrever e contar
salta, corre, canta e faz
tudo quando se mandar.

Na cidade encantada existem vários lugares magníficos e tem até o rio de nome o banho da mocidade, ou seja, a encantada fonte da juventude, desejada por diferentes povos desde a antiguidade aos nossos dias, poderá ser encontrada em São Saruê. O poeta paraibano assim descreve a fonte e os lugares magníficos de São Saruê: 
  
Gravura de José Costa Leite. Folheto 1977
Lá tem um rio chamado
o banho da mocidade
onde um velho de cem anos
tomando banho a vontade
quando sai fora parece
ter vinte anos de idade.

É um lugar magnifico
onde eu passei muitos dias
bem satisfeito e gozando
prazer, saúde, alegrias
todo esse tempo ocupei-me
em recitar poesias.

O poeta usa uma estratégia para vender o folheto dizendo que quem quiser saber como encontrar o país encantado tem que comprar o cordel.
Eu comprei o folheto na esperança de encontrar o caminho certo que me levasse a esse lugar bom de se morar mas, nem em sonho encontrei.
Nas últimas estrofes o poeta assim diz:
Lá existe tudo quanto é de beleza
tudo quanto é bom, belo e bonito,
parece um lugar santo e bendito
ou um jardim da divina Natureza
imita muito bem pela grandeza
a terra da antiga promissão
para onde Moisés e Arão
conduziram o povo a Israel
onde dizem que corriam leite e mel
e caía manjar do céu no chão

Tudo lá é festa e harmonia
amor, paz, benquerer, felicidade
descanso, sossego e amizade
prazer, tranquilidade e alegria;
na véspera de eu sair naquele dia
um discurso poético lá eu fiz,
me deram a mandado de um juiz
um anel de brilhante e de “rubim”
no qual um letreiro diz assim:
- É feliz quem visita este País.

Vou terminar avisando
a qualquer um amiguinho
que quiser ir para lá
posso ensinar o caminho,
porém só ensino a quem
me comprar um folhetinho.

Nada melhor do que contar essa história fantástica neste momento de isolamento social para enfrentar mais um período de pandemia que desde a Idade Média afeta e mata milhares de pessoas em quase todas as partes do mundo. Lamentavelmente ainda não encontrei esse lugar encantado tão bom de viver e aqui no mundo real tenho que esperar a pandemia passar. O país encantado de São Saruê deve estar em algum lugar do semiárido nordestino e vou continuar procurando até um dia encontrar. E se Deus é brasileiro, como algumas pessoas dizem, acho que Ele viveu em São Saruê um lugar sem pecado, sem maldade, sem inveja, sem isolamento social, sem Covid-19. Quem quiser conhecer melhor esse país encantado recomendo que compre, leia com atenção o cordel de Manoel Camilo dos Santos Viagem a São Saruê, se tiver mais sorte que eu e chagar lá, venha me buscar.       


Referências
BARRETO, Luiz Antonio. Cristãos e mouros na cultura brasileira. Euro-América. Rio de Janeiro: Comissão Nacinal de Folclore/IBEC/UNESCO: Tempo Brasileiro, 1996.
BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação: a comunicação dos marginalizados. São Paulo: Cortez, 1980.
BENJAMIN, Roberto. A presença da temática francesa na literatura de cordel brasileira – nota prévia. Comunicação ao Congresso Internacional de Literatura de Cordel, 1. Governo da Paraíba/Universidade de Poitiers, João Pessoa, 20 a 23 de setembro de 2005.
FRANCO JÚNIOR, Hilário. Cocanha: a história de um país imaginário. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SANTOS, Manoel Camilo. Viagem a São Saruê. [Folheto de cordel]. João Pessoa: MEC/PRONASEC RURAL – SEC/PB/UFPB/FUANPE, 1981.
SANTOS, Manoel Camilo. Viagem a São Saruê. [Folheto de cordel]. Olinda: Ed. Casa das crianças de Olinda, 1977.
TRIGUEIRO, Osvaldo Meira. Cocanha: o encantamento medieval e contemporâneo no cordel. Disponível em: <https://docplayer.com.br/14178354-Cocanha-o-encantamento-medieval-e-contemporaneo-no-cordel.html>

terça-feira, 17 de setembro de 2019

A vindima no Perrote em Portugal


Acervo pessoal
Já começou a temporada das vindimas em Portugal e como não poderia deixar de ser a família Henriques e Faria mantém a tradição de colher uvas há várias décadas na bela quinta de Eugênio e Judite. O Perrote fica em Vilar dos Prazeres próximo da Vila Medieval do Castelo de Ourém a cerca de 14 quilômetros do Santuário de Fátima. Pois é, todos os anos quase sempre depois do dia 15 de setembro os familiares e os amigos de Eugénio Henriques e Judite Faria, cunhado e irmã de Rosinha, reúnem-se no dia da colheita das uvas, matéria prima para a produção do vinho e da aguardente.
A vindima tem início logo cedo da manhã e se prolonga até o final da tarde, é um dia de muito trabalho mas, na realidade, é uma mistura de trabalho arrojado, pesado e de satisfação porque todos sabem que no próximo ano terão bom vinho e aguardente para o consumo por um longo período.
Vinho, aguardente, pão, azeite e queijos são obrigatórios no cardápio diário da maioria dos portugueses e os Henriques e Faria como tradicionais famílias vilarenses não poderiam ficar de fora do costume local, têm que fazer o seu vinho, a sua aguardente e o seu azeite em quantidade e qualidade.
Eu e Rosinha temos a felicidade de participar diversas vezes das vindimas no Perrote, de pegar no pesado e sou testemunha que o dia da colheita é também um dia de convívio dos familiares e amigos, que se juntam para trabalhar, cantar e contar suas histórias de vida apanhando as uvas e em volta da mesa na hora do almoço e do jantar oferecidos por Eugênio e Judite, uma maravilhosa jardineira e bacalhoada regada com vinho. Como gostaria de estar agora lá no Perrote participando de mais uma vindima, mas desta vez não foi possível até porque acabei de chegar de Portugal depois de passar os festejos juninos com eles. Fica para a próxima com toda certeza e se Deus permitir.
Segue um pequeno ensaio fotográfico do meu acervo.
colheita e a prova   das uvas:
Acervo pessoal

Acervo pessoal

Acervo pessoal

Acervo pessoal

Acervo pessoal

Acervo pessoal

Acervo pessoal

Acervo pessoal

Acervo pessoal

 Acervo pessoal

Acervo pessoal

Almoço de Confraternização:
Acervo pessoal

Acervo pessoal

Prensa das uvas:
Acervo pessoal


Acervo pessoal

Acervo pessoal

Mexendo o mosto:
Acervo pessoal

Acervo pessoal

Acervo pessoal

Acervo pessoal


terça-feira, 3 de setembro de 2019

42º Congresso Brasileiro de Ciência da Comunicação - 2019 (São 39 anos associado a INTERCOM)

O que é a Intercom?

“A Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – é uma instituição sem fins lucrativos, destinada ao fomento e à troca de conhecimento entre pesquisadores e profissionais atuantes no mercado. A entidade estimula o desenvolvimento de produção científica não apenas entre mestres e doutores, mas também entre alunos e recém-graduados em Comunicação.
Fundada no dia 12 de dezembro de 1977 em São Paulo, a Intercom preocupa-se com o compartilhamento de pesquisas e informações de forma interdisciplinar. Além de encontros periódicos e simpósios, a instituição promove um congresso nacional – evento de maior prestígio na área de pesquisa em Comunicação, que recebe uma média de 3,5 mil pessoas anualmente, entre pesquisadores e estudantes do Brasil e do exterior. O evento, sediado em cidade escolhida pelos sócios no ano anterior, é precedido de cinco congressos regionais” (Fonte: Portal Intercom).
Sou membro da INTERCOM há 39 anos, a minha filiação se deu no dia 11 de agosto de 1980, portanto, no próximo ano completo 40 anos de atividades nesta importante associação, que congrega pesquisadores e estudiosos brasileiros e estrangeiros de ciências da comunicação desde a data de sua fundação.
Participei dos primeiros congressos e continuo participando como sócio e apresentado trabalhos nos grupos de pesquisas: Comunicação Rural; Ficção Televisa Seriada; Comunicação Comunitária; e, atualmente, no grupo da Folkcomunicação.  
Agora, depois dos 70 anos de idade, grande parte deles dedicados aos estudos e às pesquisas no campo da comunicação social, da folkcomunicação, da cultura popular e folclore, mais uma vez estarei em Belém/PA no 42º Congresso da Intercom 2019, que será realizado de 2 a 7 de setembro na Universidade Federal do Pará.
Este ano o congresso tem como tema central Fluxos comunicacionais e crise da democracia, cuja conferência será proferida pelo Prof. Dr. Ramón Salaverria da Universidade de Navarra. Para saber mais sobre o congresso clique aqui.
No Grupo de Pesquisa da Folkcomunicação vou apresentar o trabalho sobre: Os Agentes Intermediários Ativistas Culturais da Folkcomunicação e o São João de Valongo em Portugal.

Estou iniciando aqui a narrativa das minhas memórias – sem seguir uma ordem cronológica – das atividades que participei na Intercom nestes mais de 39 anos. Não poderia deixar de lembrar a importância dos professores e amigos Roberto Benjamim e José Marques de Melo que estiveram presentes em todos esses percursos da minha vida acadêmica sempre orientando as minhas andanças nos estudos, nas pesquisas e nos eventos acadêmicos de ciências da comunicação desde os anos de 1970, quando ainda estava na graduação do curso de jornalismo e depois na pós-graduação. Roberto e José Marques continuam presentes com suas referências bibliográficas e as lembranças de convivências de longos anos de afetividades, de amizade e sobretudo de aconselhamentos. 
Através deles tive uma rápida passagem nos congressos da ABEPEC (Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em comunicação), na ALAIC (Asociación Latinoamericana de Investigadores da la Comunicación) e ainda com o apoio de ambos e de Fausto Neto na COMPÓS (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação).
Estou presente na Intercom desde 1980 e na Rede Folkcom (Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação) desde 1998 ano de sua fundação; e na Comissão Nacional de Folclore desde 1977. Em todas essas atividades sempre com apoio e incentivo de Roberto Benjamin e José Marques. São muitas histórias para contar nesses quase 40 anos e aos poucos contarei.
No XXIX Intercom – 2006 realizado de 4 a 9 de setembro na UNB – Universidade de Brasília – foram homenageados com o certificado Jubileu de Prata os sócios que tinham pelos menos 25 anos de participação e contribuições para o fortalecimento da história da Intercom. E com muita honra também fui homenageado com essa honraria, numa sessão solene durante o congresso realizado em Brasília.   
Portanto, estou na expectativa e aguardando com muito desejo poder celebrar com os demais colegas os 40 anos de atividades na Intercom em 2020.
Até breve.

Com Roberto Benjamim - 2006



Na Entrega do certificado Jubileu de Prata da Intercom com Marques de Melo -2006
Com Roberto Benjamim e Anamaria Fadul - 2006




quinta-feira, 22 de agosto de 2019

A fuga de brasileiros para Portugal

Fui a primeira vez a Portugal no ano de 1986, o país acabava de entrar na CEE – Comunidade Econômica Europeia e iniciava um grande processo de modernização socioeconômica, de desenvolvendo educacional e cultural, de estabilidade política que  consolidaria o regime democrático. Conheci Portugal na época dessas grandes mudanças, do Escudo ao Euro, das acanhadas estradas para as autoestradas que cortam o país de norte a sul e com áreas de serviços maravilhosas.    
Arquivo Pessoal, Lisboa-Torre de Belém
Lisboa-Torre de Belém
 O que me fez ir a Portugal foi conhecer a família, o lugar onde nasceu a minha esposa Rosinha que é portuguesa do Vilar dos Prazeres, uma vila, pertencente a cidade de Ourém e que fica cerca de 14 quilômetros de Fátima um importante destino turístico religioso do mundo. Na primeira viagem, em 1986, também foram os dois filhos que na época eram crianças, hoje, é claro, já são adultos casados e somos avós de um neto e de uma neta. O mais velho passou uma temporada estudando lá ainda quando era adolescente e depois retornou ao Brasil e aqui toca a sua vida casado e com dois filhos. E o mais novo também adolescente passou uma temporada por lá, retornou e agora casado também toca sua vida, mas em Portugal. Pois é, um filho aqui e outro lá em terras lusitanas.
Arquivo pessoal, Lisboa-Ascensor do Lavra
Lisboa-Ascensor do Lavra
Isso é para dizer que fomos várias vezes a Portugal e já perdi até a conta.  Vamos com muito mais frequência para descansar, visitar o filho e a nora, os demais familiares, os muitos amigos e também fugir desse clima de tensão que vivemos nos últimos anos aqui no Brasil. São as crises políticas, econômicas e o que mais nos assusta é a falta de segurança. É esse medo constante que, mesmo aposentados, quando vamos a Portugal é como se estivemos de férias porque viajamos de carro de ônibus e de trem para várias cidades, vilas, aldeias, passeamos nas ruas, praças, travessas, frequentamos lugares de dia ou de noite e a preocupação de ser furtado ou assaltado é praticamente zero, até mesmo nas grandes cidades como Lisboa e Porto.
Posso aqui dar o meu testemunho porque acompanhei as grandes mudanças que aconteceram nos anos 80 e 90 do século passado e agora continuo acompanhando essas importantes transformações em Portugal que passou de um país atrasado na Europa para ser atualmente um importante destino turístico, de oferta de empregos e de boas universidades para os brasileiros. O aeroporto de Lisboa ou do Porto já não são apenas para as conexões dos brasileiros com destinos a outros países europeus e muito menos cidades dormitórios enquanto aguardavam o voo do dia seguinte. É impressionante o crescimento do fluxo de turistas de todas as partes do mundo em Portugal.
Arquivo pessoal, Lisboa Festa popular
Lisboa-Festa popular
E como não poderia deixar de ser nesse momento Lisboa e Porto estão sendo tomadas por brasileiros não só como turistas, como também para trabalhar, estudar, investir num mercado mais estável, ou mesmo para morar depois da aposentadoria em busca de uma melhor qualidade de vida. Atualmente cerca de 105 mil brasileiros residem em Portugal.
O professor e ensaísta português Arnaldo Saraiva, em artigo publicado no Jornal Público de 15 de julho, sobre a presença dos brasileiros em Portugal, chama atenção para os números oficiais que, segundo as estatísticas, equivalem a um quinto da totalidade dos estrangeiros no país.
“Mas pelo que vemos e ouvimos em espaços públicos e privados, na televisão e na rádio, temos a sensação de que serão muito mais; aliás, nesses números não entram os chamados luso-brasileiros e os turistas que renovam habilmente a sua permanência”.  
Continuando no seu artigo, o ensaísta Arnaldo Saraiva, chama ainda atenção para os excluídos dessas estatísticas, as legiões de artistas que atuam nas telenovelas, nos teatros, os cantores populares e inclusive os das músicas sertanejas que fazem sucesso em Portugal. E, sem dúvida, as telenovelas da Rede Globo são as responsáveis para que essas legiões de espetáculos com artistas brasileiros continuem fazendo sucesso, desde a exibição da telenovela Gabriela em 1977 aos dias atuais.    
Arquivo pessoal - Padrão dos Descobrimentos
Lisboa-Padrão dos Descobrimentos
Encontramos brasileiros nos restaurantes, nos cafés e bares, nas lojas, no taxi e uber, nos hotéis, clínicas médicas, nos pontos turísticos, como entregadores de pizza, como empregadas domésticas, nos times de futebol da primeira à última divisão, na televisão e na rádio, nas universidades, como grandes empresários e em tantas outras atividades. Onde chegamos ouvimos quase sempre alguém falando português com o sotaque brasileiro. Eita! ele é brasileiro também.
São brasileiros de diferentes classes socioeconômicas que estão espalhados por todo o país, evidentemente os ricos escolhem para morar em Lisboa ou na área metropolitana da capital como Cascais, Estoril ou em outras regiões como  Douro e Algarve.  Estão investindo em imóveis de alto padrão, só compram carros de luxo, circulam nas ruas exibindo ostensivamente relógios e outras joias de grife sem medo de roubos e assaltos.
A Revista do Expresso, uma publicação do jornal semanário Expresso, na edição de 3 de agosto publicou uma extensa reportagem assinada pela jornalista Catarina Nunes sobre a vida dos milionários brasileiros em Lisboa.
“A imagem de Portugal de país desinteressante, atrasado e fora de moda está a dissipar-se na cabeça dos brasileiros, em particular na dos milionários, que deixam o Brasil e rumam de braços abertos para o “país irmão”. Seja para fugir da crise e da insegurança ou da Operação Lava Jato. Por cá, e com dinheiro sem limites, replicam o estilo de vida que trazem de São Paulo ou do Rio de Janeiro e contribuem para fazer disparar o preço do imobiliário e as vendas de marcas e produtos de luxo”.   
Arquivo Pessoal - City Tour Lisboa
Lisboa-Partida para City Tour
Os brasileiros de menor poder aquisitivo, mesmo ganhando menos, em Portugal vivem melhor e com uma qualidade de vida superior à que teriam aqui no Brasil. Com o salário base – mínimo – pode-se morar dignamente em casa com água, luz, aquecedor e esgoto mesmo que seja em bairros mais afastados dos grandes centros. O transporte coletivo facilita a mobilidade urbana, o ir e vir de casa ao trabalho, o sistema de saúde e de ensino público funciona satisfatoriamente. O IVA (Imposto sobre Valor Acrescentado) tem uma taxa menor para os alimentos básicos, é compatível com a rede dos trabalhos de baixos salários e consequentemente a classe operária tem melhor poder de consumo. Ouvi de alguns brasileiros de vários níveis de escolaridade que mesmo ganhando menos não pretendem voltar para o Brasil, pelo mesmo a curto prazo.  
Viver em Lisboa, no Porto ou em outras cidades em Portugal, quase não é necessário instalar nas casas cercas elétricas, câmeras de segurança, nos prédios de apartamentos não tem porteiro 24 horas ou qualquer outro sistema de segurança porque o modo de vida possibilita chegar e sair de suas moradas com tranquilidade.
 Mas, todo esse crescimento do fluxo turístico, essa abertura para os “irmãos brasileiros” que chegam para morar, investir, trabalhar, estudar ou mesmo buscar uma melhor qualidade de vida tem suas vantagens e desvantagens para os habitantes “nativos” que se sentem um pouco incomodados com tantas mudanças na vida cotidiana de sua cidade, do seu bairro e até da sua rua. Portanto, portugueses e brasileiros falam a mesma língua com sotaques diferentes, com algumas identificações nos hábitos e costumes, mas não são iguais como todo e qualquer irmão e quando não são de sangue são ainda mais diferentes.
Arquivo pessoal, Lisboa-Parq Eduardo VII
Lisboa-Parq Eduardo VII
Algumas vezes presenciei portugueses incomodados com a presença de brasileiros, mas felizmente é ainda uma minoria que tem esse tipo de atitude.  Nossa isso só pode ter sido coisa de brasileiro!!   Principalmente quando há uma situação de pequenos furtos ou roubos, coisa rara mas pode acontecer. Ou sobre o comportamento das mulheres brasileiras. Meu marido foi lá fora e ainda não voltou, espero que não tenha encontrado uma brasileira. Ouvi uma mulher comentando com outra numa dessas festas populares preocupada com a demora do marido que tinha saído do salão da festa onde tinha brasileiros e principalmente brasileiras. Acho que é uma percepção ainda com os resquícios das avalanches de jovens bonitas brasileiras levadas por quadrilhas organizadas para trabalharem em casas de prostituição ou de programas sexuais de alto nível.         
Portugal já não é mais um país só romântico, da tristeza cantada nos fados, do bacalhau, do azeite, do vinho, dos doces conventuais, das festas religiosas e profanas populares principalmente nos meses de verão. É tudo isso, mas vem passando por profundas mudanças com a sua descoberta como importante destino turístico nos últimos anos e como consequência cada vez mais se modernizando para atender a demanda de consumo dos estrangeiros que lá chegam para desfrutar de suas belezas naturais e culturais.
Lisboa é atualmente uma cidade globalizada, é cada vez mais hibrida onde convivem pessoas de diferentes nacionalidades em espaços pequenos e interagindo com o tradicional e o contemporâneo. Portugal, mesmo assim continua um pais da afetividade e da paixão pelo fado de Amália Rodrigues e pelo futebol das duas maiores torcidas Benfica e Sporting.

Faz favor e, obrigado.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Rua das Pretas uma tertúlia luso-brasileira em Lisboa

Lisboa
Lisboa vista do Castelo São Jorge
Os brasileiros que vão a Lisboa já chegam com um roteiro clássico definido quase sempre pelas empresas de viagens que incluem, na maioria das vezes, três dias e três noites com direito a passeios para visitar os principais pontos turísticos da capital de Portugal. Conhecer, fazer fotos e selfies em grupos ou individualmente na Torre de Belém, no Mosteiro dos Jerônimos, no Castelo de São Jorge, no Terreiro do Paço, no Rossio, passando pela Rua Augusta, no Café A Brasileira, no Parque Eduardo VII, entrar na fila para comprar e degustar os famosos pastéis de Belém e, na hora do almoço um prato de bacalhau com vinho, um digestivo de bagaceira ou ginja e, para fechar o roteiro, à noite um show de fado. E, assim, vão achando que já conheceram quase tudo de Lisboa. É tudo maravilhoso, é encantador passear nas ruas, nas praças, nas travessas, nas igrejas, nos importantes monumentos históricos, ouvir o fado e comer nos restaurantes ou nas tascas de comidas tradicionais na cidade dos lisboetas, é um roteiro inesquecível e deve ser realizado sim.

Mas agora os turistas brasileiros que vão a Lisboa para o clássico passeio turístico não podem deixar de conhecer a tertúlia luso-brasileira, promovida pelo músico e produtor cultural brasileiro Pierre Aderne, no Palacete do Príncipe Real que acontece todos os sábados a partir das 20:30h. É isso mesmo, pontualmente.

Rua das Pretas
Rua das Pretas -Tertúlia 
Estou falando do projeto musical Rua das Pretas onde rola, principalmente, a boa música portuguesa e brasileira num espaço charmoso do Palacete do Príncipe Real para ouvir fados, mornas, bossa nova, samba, baião, regados ao bom vinho com queijos, pães e outras iguarias da culinária local. É assim o espetáculo regido por Pierre e os seus convidados brasileiros, portugueses, cabo-verdianos, americanos, espanhóis, franceses e de tantas outras nacionalidades. Na Rua das Pretas se canta e fala diferentes línguas e todos se entendem até por que a música aproxima as pessoas, independente de suas nacionalidades. Ali você não é um espectador do show, é parte dele não há uma distância separando o palco do auditório estão todos juntos, misturados cantores, músicos, poetas e nós admiradores da boa música tradicional e contemporânea luso-brasileira. 

Rua das Pretas
Rua das Pretas - Na Adega
Recentemente, no dia 27 de julho, estivemos lá participando da tertúlia Rua das Pretas para comemorar o aniversário do nosso filho Osvaldinho. Fomos recebidos pelo Pierre e pela Dani, além de uma competente equipe da produção e ali vivemos uma noite espetacular com músicas, vinhos e a oportunidade de conhecer pessoas interessantes de diferentes lugares. A tertúlia é dividida em duas partes e no intervalo entre uma taça e outra de vinho estamos conversando e trocando opiniões sobre os movimentos culturais nos países lusófonos e de tantas outras partes do mundo. Rua das Pretas é um acontecimento e quem participa, mesmo que seja uma única vez, já deixa um pé enfincado, deixa alguma coisa enraizada e fica fácil querer voltar, até porque são entrelaçados novos campos de experiências socioculturais. Na Rua das Pretas conheci portugueses, brasileiros, italianos e franceses que fizeram uma palhinha num ambiente descontraído, cantaram e tocaram para toda gente.

Portanto, quando for fechar o seu pacote turístico para visitar Lisboa solicite ao seu agente de viagem uma reserva para a tertúlia Rua das Pretas no Palacete do Príncipe Real, para não confundir com a tradicional travessa Rua das Pretas bem próximo da Avenida da Liberdade, onde tudo teve início em 2011 e você terá uma boa oportunidade de no mesmo lugar ouvir boas músicas portuguesas e brasileiras na noite de Lisboa. Aí sim, você pode dizer que conheceu em Lisboa um movimento cultural luso-brasileiro, mas de portas abertas para várias partes do mundo e em pouco tempo, aliás, como quase sempre são programados os roteiros turísticos pelas empresas de viagens.

Reserve, daqui mesmo do Brasil, o seu lugar porque é limitada a quantidade de pessoas por noite: booking@ruadaspretas.com, telefone: +351 913 383 306.
Faz favor e obrigado.