Écordel & Viola foi o tema do evento promovido pela AMJO – Associação dos Ambientalistas e Moradores do Jardim Oceania, em João Pessoa, que é presidida pelo amigo patoense Severino Dutra, meu conterrâneo de Patos, e com o apoio de vários moradores do bairro localizado no litoral norte de João Pessoa. A AMJO vem desenvolvendo um importante projeto de revitalização de praças no Jardim Oceania, de educação ambiental e de valorização das manifestações folclórica e das culturas populares, que inclui grupos comunitários das periferias da cidade. Ou seja, integrando as comunidades periféricas de alguns bairros de João Pessoa com os moradores do Jardim Oceania que é um bairro de classe média no litoral da capital paraibana.
FolkMídia
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Écordel & Viola atividade do projeto de revitalização de Praças
sexta-feira, 20 de março de 2026
O equinócio de outono e a celebração do dia de São José
Hoje, dia 20 de março de 2026, ás 11h45 teve início o outono, aqui no hemisfério sul, onde está localizado o Brasil, e no hemisfério norte é a chegada da primavera. É o período em que acontece o equinócio, quando o dia e a noite têm duração igual de 12 horas. Portanto, não é mera coincidência os povos cristãos e principalmente os católicos celebrarem no dia 19 de março o dia de São José Operário, padroeiro dos marceneiros, dos carpinteiros e artesãos, pai adotivo de Jesus e o esposo de Maria. São José está na lista dos santos mais celebrados no mundo e de grande devoção no catolicismo popular. E desta forma a igreja católica, no decorrer do tempo, incorpora os períodos festivos das mudanças das estações no seu calendário litúrgico. ![]() |
| Paróquia de São José - João Pessoa/PB |
quinta-feira, 27 de junho de 2024
Festa da Bugiada e Mouriscada: o São João de Sobrado, conselho de Valongo no Norte de Portugal
Osvaldo Meira Trigueiro
Introdução
A
possível origem da festa da Bugiada e Mourisqueiros
A
filha do Reimoeiro, o rei mouro, estava muito doente desenganada pelos médicos
da corte e como havia conhecimento que a filha do rei cristão, o Velho da
Bugiada, tinha sido curada pela milagrosa imagem de São João, o Reimoeiro
convida o Velho da Bugiada para um jantar e pedir-lhe a imagem de São João por empréstimo
na tentativa de curar a sua filha. Mas, o Velho da Bugiada, desconfiado, não
aceita o convite com medo de ser uma armadilha do Reimoeiro para ficar de posse
da imagem milagrosa. O Reimoeiro desesperado declara guerra ao Velho da Bugiada
e tem início uma longa batalha pela posse da imagem milagrosa de São João, cujo
confronto festivo acontece no dia 24 junho.
O mundo pelo avesso ou da desordem social
Sobrado,
no dia de São João, torna-se um grande terreno de batalhas de enfrentamento dos
dois grupos festivos “antagônicos” dos Bugios e Mourisqueiros que percorrem as ruas da freguesia com suas músicas
e danças típicas, mas o confronto entre os grupos só acontece já no final da
tarde na batalha da tomada do castelo dos Mourisqueiros pelos Bugios. Essa
batalha é um acontecimento constituído de campo simbólico polarizado entre cristãos
e mouros onde as relações de força são estabelecidas festivamente por diversos
protagonistas que participam das celebrações em homenagem a São João. Entre os
protagonistas dos festejos populares destacam-se o Reimoeiro dos Mourisqueiros,
o Velho dos Bugios, o Cego, o Sapateiro e sua mulher, que é um homem vestidos
de trajes femininos, o Cobrador dos Direitos, o Semeador, a Serpa, o Advogado e
o desfile da Crítica que será motivo para uma análise em outro estudo. Bugios (cristãos)
e Mourisqueiros (mouros) são um exemplo extraordinário da sobrevivência de bens
culturais medievais na festa de São João em Sobrado, onde quase tudo acontece
ao contrário, da inversão dos valores dos papéis sociais, que são características
das celebrações religiosas e das festas carnavalescas na Idade Média. Na
Bugiada e Mouriscada observamos vários eventos que estão vinculados a festas
cujas origens são tão antigas quanto a expansão do cristianismo na Península
Ibérica. Portanto, no São João de Sobrado o mundo fica pelo avesso ou quase
tudo acontece ao contrário e tem suas origens nas tradições milenares do Velho
Mundo, onde nos campos de disputas entre o sagrado e o profano prevalece o espírito
carnavalesco e sempre a vitória dos cristãos sobre os mouros (AMORIM, BENJAMIN,
2002).
O
Grupo dos Bugios
Representa
os cristãos, tem grande número de participantes sem restrições de idade e de
gênero, são mascarados e suas indumentárias são multicoloridas com
predominâncias das cores vermelha, azul, verde e laranja. Desacatam-se pelo uso
de capa, chapéu de abas largas ornamentados com fitas coloridas, na altura da
cintura uma faixa larga de cor vermelha, os calçados são diversificados, as
meias são longas até a altura dos joelhos com listas de várias cores e guizos
pendurados. O grupo sai em cortejo pelas ruas de Sobrado em duas longas filas
com cerca de 800 brincantes comandados pelo Velho da Bugiada, que
é o seu Rei, fazendo muito barulho para divertir o público com gritos, saltos e
algazarras. O Velho vai na frente, entre as duas filas, usa indumentária
diferente dos demais brincantes estimulando o grupo com palhaçadas e
transgressões. Usam luvas brancas, nas mãos levam castanholas, rosas, bichos de
pelúcia, bonecas, buzinas, grandes colheres e garfos de madeira, alho porro ou
martelinho, chifre de boi, rabo de raposa e de coelho, e tantos outros objetos
conforme a criatividade de cada brincante. O grupo é acompanhado por uma
orquestra de cordas, violões e violinos, com forte marcação rítmica das
castanholas, dos guizos e sons dos brincantes imitando animais (PINTO,1983 e LOPES,
2008). O grupo que representa os cristãos é transgressor da ordem social, com
atitudes obscenas e “diabólicas” provocando risos e alegria na multidão das
ruas de Sobrado quando passam aos gritos e pulos. A Bugiada, assim como a Mouriscada,
seria um ressignificado das antigas encenações do Mistério da Paixão ou do Mistério de São João, onde era permitido que
as pessoas mascaradas e vestidas de diabo corressem pelas ruas das aldeias em
total desgoverno nos dias que antecediam as festas de São João ou as
festas de Verão no hemisfério norte.
Injúrias e obscenidades faziam
parte do seu repertório: agiam e falavam contrariamente às concepções oficiais
cristãs, como aliás o exigia o papel. Faziam em cena um barulho e uma confusão
extraordinária, sobretudo se se tratava da “grande diabrura”. Daí a expressão
“fazer o diabo a quatro” Esclareçamos de passagem que a maior parte das
imprecações e grosserias onde figura a palavra “diabo”, deve a sua aparição ou
evolução aos mistérios cênicos (BAKHTIN, 1993, p. 232).
Portanto,
Bugios (cristãos) é o grupo com maior número de brincantes que representam os desordeiros,
os transgressores da ordem social, provocadores e desobedientes das regras comportamentais
do que seria um “bom cristão”. Os brincantes do grupo dos Bugios não participam
diretamente da missa solene e nem da procissão em honra a São João, são os Mourisqueiros
que participam da procissão e conduzem a desejada imagem milagrosa de São João.
Ou seja, durante quase todo o dia da festa os Bugios são os transgressores e fazem
“o diabo a quatro” pelas ruas da vila de Sobrado. É mais uma demonstração que
na festa da Bugiada e Mouriscada quase tudo acontece ao contrário ou o mundo
pelo avesso.
O
Grupo dos Mourisqueiros
Representa
os mouros infiéis, é constituído de soldados jovens solteiros, cuja tradição
devem gozar de boa saúde para enfrentar os mouros no campo de batalha, não usam
máscaras, têm uma formação de característica militar com duas filas em número
par e entre as filas fica o Reimoeiro comandante do grupo que usa trajes
diferenciados dos soldados. Os dois figurantes – soldados – que ficam na frente da fila são denominados de Guias, os que ficam atrás das filas são os Rabos e os do meio recebem a denominação de Meios. É um grupo disciplinado que obedece às ordens do comandante,
desfila ordeiramente pelas principais ruas de Sobrado com as espadas em punho
como se estivesse em posição de defesa. Suas indumentárias, coreografias e
ritmos assemelham-se à formação dos pelotões militares. O grupo participa
diretamente das celebrações religiosas dentro e fora da igreja, na missa solene
e na procissão conduzindo o andor da imagem de São João. Durante toda a festa é
acompanhado apenas por um músico, o caixeiro, que marca o ritmo tocando como se
fosse uma marcha militar. Uma das características do grupo Mourisqueiros é ser
constituído exclusivamente por homens jovens, não há participação de mulheres
nem crianças. Essa tradição seria uma ressignificação dos antigos sistemas das
guildas – corporações dos mestres dos ofícios – sociedades secretas com o objetivo de viajar por diferentes
localidades da França, o denominado – tour de France – para sistematização de
políticas em defesa da classe trabalhadora na organização de greves e
“protótipos de sindicatos”. Ou seja, “Os oficiais franceses, por exemplo,
tinham os seus “compagnonnages” ou
“devoirs”, cujos membros ativos consistiam principalmente de solteiros
entre 18 e 26 anos de idade”. Essas organizações espalharam-se na Europa
divulgando as suas ideias através de rituais secretos nos trabalhos ou nas
festas dos seus padroeiros e padroeiras (BURKE,
1989, p.
66). Os Mourisqueiros, não participam das encenações obscenas e transgressões
da ordem social, têm como objetivo executar manobras estratégicas militares
ofensivas na tentativa de roubar a imagem milagrosa de São João em poder dos
Bugios e prender o seu rei, Velho da Bugiada, no castelo.
A
Cobrança dos Direitos
A
Cobrança dos Direitos é uma das paródias burlescas da festa, que ocorre no
início da tarde do dia 24 de junho, no intervalo das batalhas entre os cristãos
e mouros em que um dos brincantes da Bugiada, escoltado por outros bugios,
montado ao contrário no burro passeia no meio da multidão representando, de
forma satírica, um cobrador de direitos ou de impostos. Acompanhado por Bugios e
outras pessoas, numa verdadeira desordem, o cobrador vai aos estabelecimentos
comerciais como as barracas, tascas e restaurantes que vendem comidas e bebidas
nas ruas de Sobrado no perímetro da festa, para recolher os impostos “devidos”.
O cobrador traz na mão um grande livro velho com estampas de mulheres nuas e
uma caneta para anotar os pagamentos recebidos e usa como tinteiro o ânus do
burro para molhar o bico da caneta. É uma cobrança simbólica de arrecadação de
comidas e bebidas feita com muita algazarra e desordem para animar a festa dos
brincantes.
Geralmente só vão às tendas de
doces, de comidas, e sobretudo de bebidas. Se o tasqueiro arma em mal-humorado
e insolente, os Bugios “pintam o diabo”, viram tudo de pernas para o ar,
fazendo grande “chinfrim”. Se lhes dão vinho, fazem que bebem (e muitos bebem
mesmo), derramando-o pelo peito abaixo; se lhes dão cerveja, “agitam-na bem
antes de usar” espalhando a espuma pela cabeça dos circunstantes (PINTO, 1983,
p. 19).
A
cobrança dos direitos ou impostos é uma manifestação do espetáculo popular que
vamos encontrar em diferentes festas religiosas e profanas como uma das
representações simbólicas de críticas aos impostos abusivamente cobrados pelos
poderes públicos, prática essa que vem desde a Idade Média aos dias atuais e
sempre contestada pela maioria da população. E como o mundo fica pelo avesso em
Sobrado no período da festa, o espetáculo Cobrança dos Direitos é mais uma das
encenações satíricas, cômicas, burlesca e que faz a alegria da multidão
aglomerada no território do Largo do Passal, que corre de um lado para o outro
atrás do cobrador de impostos montado ao contrário no burro segurando o rapo
como fosse o cabresto.
A
Lavra da Praça Invertida: semear, gradar e lavrar
Quando
finaliza o entremeio da Cobrança dos Direitos, mais uma encenação do teatro de
rua, vem em seguida a da Sementeira Invertida apresentada por personagens
mascarados, com roupas velhas e surradas imitando o pobre que trabalha no
campo. Os trabalhadores rurais figurantes vão jogando as sementes para o alto
num movimento de semeadura invertida como se estivessem plantando no espaço e
não na terra. Os brincantes da Bugiada vão abrindo passagem no meio da multidão
para que a encenação do espetáculo da entrada do arado cenográfico, puxado por
burros dando voltas rápidas bem próximo dos espetadores que correm, pulam,
gritam para não serem atingidos, mas ao mesmo tempo vibram, dão risadas de
demonstração de alegria e satisfação de participar da encenação do mundo pelo
avesso. A Sementeira Invertida é uma encenação no entorno do Largo do Passal
que representa de forma satírica as origens das antigas festas cíclicas agrícolas
do início de verão no hemisfério norte.
A
Dança do Cego ou Sapateirada
É
um dos momentos mais esperados da festa que acontece nas mediações do adro da
igreja na presença de um grande público. A montagem do cenário é realizada por
alguns brincantes da Bugiada que na rua em frente à porta principal da igreja e
da casa paroquial constroem um charco com lama e capim. É um espetáculo cujo
enredo conta a história de um cego e seu guia, de um sapateiro e sua mulher
(personagem masculina vestida de mulher), com enredo e tramas onde prevalecem o amor, a traição, o ódio, o risível, o cômico, o grotesco e o
obsceno que são interpretações tradicionais nas construções dramáticas do
gênero teatral popular de rua encenado nos adros das igrejas e praças públicas
no período das antigas festas de Corpus-Christi, de São João Batista, de santos
e santas padroeiros e padroeiras de algum lugar e nas festas de carnavalização
na Idade Média. A dança do cego e do sapateiro é mais um exemplo da
ressignificação dos espetáculos encenados nas antigas festas de São João na
passagem do solstício de verão com enredos que continuam conquistando
importantes públicos nas festas tradicionais populares no contexto da sociedade
midiatizada pela globalização cultural com as fortes marcas culturais da Idade
Média na Idade da Mídia.
Essa festa adotava uma forma
carnavalesca em algumas comunidades que tinham São João como santo padroeiro.
Era o caso, por exemplo, de Chaumont, na diocese de Langres, onde as semanas
que antecediam a festa eram dedicadas ao “desgoverno”, organizado, ou antes,
desorganizado por demônios. Os demônios, um tanto parecidos com os “caldeus”
russos, atiravam fogos de artifício na multidão, corriam pela cidade nas noites
de domingo, aterrorizavam o campo e cobravam taxas no mercado (BURKE, ob. cit.,
p. 218-219).
No
Largo do Passal, local onde é encenada a dança do cego, concentra-se uma
multidão para assistir as travessuras e algazarras de alguns brincantes da
Bugiada que atuam como coadjuvantes do espetáculo protagonizado pelo cego e seu
guia, pelo sapateiro e sua mulher (homem vestido de mulher). Nas festas da
piedade popular, na Idade Média, as corporações de ofícios e seus mestres
tinham um importante papel na organização, na realização das celebrações
religiosas e profanas, inclusive com destaques nas procissões conforme a
posição hierárquica de cada um na comunidade. As corporações tinham os seus
santos padroeiros, rituais específicos transmitidos de geração em geração para
manter as tradições do ofício e, quanto mais especializado o trabalho, o mestre
e os seus aprendizes tinham posições privilegiadas no seu grupo social. O
sapateiro era um profissional que tinha uma vida social respeitada na
comunidade, com um nível financeiro e cultural acima da média, geralmente sabia
ler e escrever e por esses motivos admirado pelas moças mais cobiçadas da
sociedade. Na Idade Média as narrativas sobre os feitos dos sapateiros como
grandes mestres eram cantadas e contadas nas redes de comunicação orais – mnemônicas
(ZUMTHOR, 1993) – representadas nas peças teatrais nas ruas, nas praças e o seu
personagem quase sempre era um dos heróis das histórias.
Os sapateiros aparecem como heróis
também na Europa continental; na famosa canção folclórica francesa Le petit cordonnier, é o sapateiro que
fica com a moça tão disputada. Sobrevivem canções e estórias germânicas em
louvor à sapataria; da mesma forma os skomakarvisa
escandinavos, isto é, canções de trabalho dos sapateiros, e a Pomerânia
polonesa registra o szewc, dança do sapateiro
(BURKE, ob. cit., p.65).
Os
sapateiros se envolviam na política, com opiniões religiosas, às vezes
contrárias a pregações oficiais da igreja e por esses motivos alguns sapateiros
eram perseguidos ou pagavam até com a própria vida por defender seus pontos de
vista e suas profecias, como o caso do famoso sapateiro e profeta português de
Trancoso, Gonçalo Anes Bandarra que viveu no século XVI (BURKE, ob. cit., p 65.).
Ao contrário do sapateiro os cegos eram andarilhos, pedintes, vistos como artistas
vagabundos, como malandros e que sempre davam um jeitinho para conseguir seus objetivos.
Cantores e improvisadores de versos que se apresentavam nas feiras, nas festas
e nas portas das igrejas para ganhar um pouco de dinheiro, geralmente
analfabetos, não tinham grande prestígio na sociedade, quase sempre eram pobres
apesar de serem grandes artistas e com a sua arte agradarem um determinado
público. Muitos desses “artistas-vagabundos” parecem ter sido cegos. “Na
Espanha, o nome usual para um cantor de rua costumava ser cego” (BURKE, ob. cit,. p.123). Nos contos, nos romances e na
literatura de cordel, que vem desde o período medieval até os nossos dias, é
possível encontrar diferentes narrativas, intermediadas por esses ativistas culturais
mediadores nas redes folkcomunicacionais importantes acontecimentos de época
contados por cegos nas feiras, nas festas e portas de igreja no Nordeste brasileiro
(TRIGUEIRO, 2008, 2019). O pesquisador
brasileiro Silva (1977), num importante estudo dos cantos e contos populares
faz um percurso profundo sobre o cego como narrador de histórias, cujas origens
estão diretamente vinculadas aos acontecimentos medievais e que chegaram ao
Nordeste brasileiro atualizados por diferentes sistemas de comunicação
transmitidas de geração em geração. A dança do cego e do sapateiro é mais uma
encenação ressignificada das histórias das cooperações de ofícios representadas
nas antigas procissões, nas festas populares e que continuam presentes no São
João em Sobrado. A dança do cego e do sapateiro é um extraordinário espetáculo
popular que merece ser visto no dia de São João, 24 de junho, em Sobrado. A
dança do cego e do sapateiro encenada na fronteira dos territórios sagrado
(igreja) e do profano (a rua) é uma representação teatral notável –
performática – que através dos seus personagens narram uma história dramática
de amor, traição, cômica, satírica, obscena e sobretudo risível.
Algumas
questões para reflexão
Nas
minhas observações exploratórias participativas no período das festas, em 2013,
2015 e 2019, ficou evidenciado que a Bugiada e Mouriscada é constituída por
complexas redes de agentes intermediários da folkcomunicação, que operam os
diferentes canais de comunicação como mediadores ativistas culturais e que
negociam os interesses da comissão organizadora da festa tradicional popular com os interesses
das demandas de consumo dos bens
culturais da festa no contexto da
sociedade midiatizada (BERTRÃO, 1980, TRIGUEIRO, 2008). Mesmo com a globalização
cultural, cada vez mais o interesse dos meios de comunicação social, do turismo
e de tantos outros agentes externos, a festa religiosa e profana de Sobrado no
dia de São João continua com suas marcas culturais tradicionais, o que faz da
Bugiada e Mouriscada uma festa diferenciada e única das tantas outras
celebrações aos santos populares em Portugal no mês de junho. A Bugiada e
Mouriscada é uma festa com grande participação popular com alegria e diversão,
mas carregada de insatisfações, de críticas aos poderes públicos e privados
publicizadas pelo protagonismo dos agentes ativistas midiáticos culturais da
folkcomunicação, que organizam estratégias de encenação das danças e do teatro popular
de rua crítico, risível, cômico, burlesco, que conta à sua maneia as histórias
do passado entre cristãos e mouros e as histórias do presente entre o povo e as
elites. Nas batalhas entre Bugios e Mourisqueiros, nas paródias da Dança do Cego
ou Sapateirada, da Cobrança dos Direitos, da Lavra da Praça, no Cortejo da
Crítica, na batalha final da prisão e libertação do Velho da Bugiada, o risível,
o cômico e o burlesco têm significação social (BERGSON, 1983). Portando, é
incorreto olhar a festa de São João ou da Bugiada e Mouriscada como um momento
simplesmente de fuga da vida cotidiana e alienada dos problemas socioculturais
e econômicos de Valongo ou mesmo da freguesia de Sobrado. Os brincantes da
festa estrategicamente aproveitam-se do período dessa celebração para narrar o
enfrentamento do bem contra o mal, dos cristãos e mouros, numa batalha que
todos já conhecem o seu final há centenas de anos, mas o povo fica até o
encerramento da festa para ver a vitória dos cristãos contra os mouros infiéis.
Cada festa tem os seus percursos próprios e em Sobrado não é diferente, a
batalha entre cristãos e mouros narrada no decorrer da festa tem as suas singularidades
locais que a diferencia da encenação do Auto do Rei David durante a festa de
São João em Braga, também no dia 24 de junho (observação in loco) e do Auto da
Floripes, em Viana do Castelo, encenado na festa de Nossa Senhora das Neves no
dia 5 de agosto (ABREU, 2001). As batalhas entre cristãos e mouros aqui no
Brasil representadas na Chegança, na Nau Catarineta, na Cavalhada, na literatura
de cordel, nos cantos, nos contos e romances populares e em diferentes
manifestações das culturas tradicionais ao longo do tempo foram incorporando
bens culturais tropicalizados, primeiro pelos povos originais, depois pelos africanos,
depois por tantos outros povos que
chegaram ao Brasil já depois do período colonial e, atualmente, com os avanços
dos meios de comunicação e do turismo para atender as demandas da sociedade
midiatizada. As batalhas nas festas entre cristãos e mouros, entre bem (azul) e
o mal (encarnado), onde esse último sempre é derrotado, são narrativas do ciclo
carolíngio, das canções de gestas que contam os feitos dos reis católicos
contra os infiéis mouros, seja em Portugal ou no Brasil, sempre têm um final
feliz e todos terminam em paz. A festa de São João, como tantas outras que são celebradas,
não deixa de ser uma das representações ressignificadas das antigas rupturas dos
valores sociais da vida cotidiana, da bagunça, da desordem e da transgressão
consentidas pela igreja e autoridades, no início do verão na Europa. O sagrado
e o profano nas festas tradicionais populares não são mais campos de estudos só
do interesse dos folcloristas, etnólogos, sociólogos, historiadores e
antropólogos, nos últimos anos tornou-se objeto de estudos dos comunicólogos e turismólogos,
porque são festas que vêm, cada vez mais, atendendo as demandas dos negócios do
turismo e das organizações da comunicação social. A Bugiada e Mouriscada, é
mais um exemplo de uma festa popular em processo de ressignificação com o
objetivo de atender as demandas da sociedade de consumo inserida no contexto da
globalização cultural, mas não se afasta das suas marcas estruturantes vinculadas
às suas tradições de celebração do dia de São João. Esses agentes internos,
Bugios e Mourisqueiros, são os responsáveis pela manutenção das suas tradições,
que operam como ativistas culturais e negociadores dos processos de transformação
da festa com os agentes intermediários representantes das instituições e
organizações da exterioridade, porque são eles os detentores do patrimônio
cultural da grande batalha entre cristãos e mouros na freguesia de Sobrado,
conselho de Valongo no Norte de Portugal.
Foto: 01 - No dia 24 de junho o povo vai ás ruas de
Sobrado festejar o São João.
Fotos: 04, 05 e 06 –
Imagem milagrosa de São João. Os ex-votos
antropomórficos como testemunhos de graças alcançadas com a intercessão de São
João. Procissão em honra a São João.
Fotos: 15 e 16 – A
encenação da Cobrança do Direito ou de Imposto.
Fotos: 17, 18 e 19 – A encenação
invertida da Lavra da Praça: semear, gradar e lavrar.
Fotos: 20 e 21 – O Cego e o Sapateiro
Fotos: 22, 23, 24 e 25 –
Igreja Matriz de Sobrado dedicada a Santo André localizada no Largo do Passal onde é
encenada a dança do Cego ou Sapateirada.
Fotos: 26 – Cavaleiro leva mensagem do castelo cristão para o castelo mouro no processo de
negociação para libertar o Velho dos Bugios. A mensagem é simbolicamente uma
folha de plátano espetada na sua espada.
Fotos: 27 e 28 – Batalha final entre cristãos e mouros, prisão e libertação do Velho dos Bugios - encerramento da festa.
Referências
ABREU, Alberto A. O Auto da Floripes no imaginário minhoto. Viana do Castelo: Câmara Municipal, 2001.AMORIM, Maria Alice; BENJAMIN, Roberto. Carnaval: cortejos e improvisos. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2002.
BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: HUCITEC, Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1993.
BARRETO, Luiz Antônio. Cristãos e mouros na cultura brasileira. Eu-América: uma realidade comum? Rio de Janeiro: Comissão Nacional de Folclore/IBEC/UNESCO/ Tempo Brasileiro, 1996.
BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação: a comunicação dos marginalizados. São Paulo: Cortez, 1980.
BENJAMIN, Roberto. Folkcomunicação no contexto de massa. João Pessoa: Editora Universitária, 2000.
BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.
BURKE, Peter. Cultura popular na idade moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
LOPES, Aurélio. A Festa dos Bugios do Sobrado. Instituto de Estudos de Literatura Tradicional/Fundação para Ciência e Tecnologia/IRELT. Lisboa, 2008.
PINTO, Manuel. Bugios e Mourisqueiros. Edição da Associação de Defesa do Patrimônio e Cultura do concelho de Valongo/Portugal, 1983.
PONTES, Roberto, MARTINS, Elizabeth Dias. Residualidades ao alcance de todos. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editores, 2015.
SILVA, Jackson Lima da. O folclore em Sergipe I: romanceiro. Rio de Janeiro: Cátedra, Brasília. INL, 1977.
São João de Sobrado. Figuras. Disponível em: < https://saojoaodesobrado.pt/pt/sao-joao-de-sobrado/bugiada-mouriscada/figuras/>. Acesso em 26 de junho. 2024.
TRIGUEIRO, Osvaldo Meira. Folkcomunicação e ativismo midiático. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2008.
TRIGUEIRO, Osvaldo Meira. Os agentes intermediários culturais e os processos de atualização na folkcomunicação. Revista Internacional de Folkcomunicação. Ponta Grossa, v.16, n.37, 2018. Disponível em: <http://www.revistas.uepg.br/index.php/folkcom/article/view/2388/563563648 >. Acesso 14 maio. 2019.
ZUMTHOR, Paul. A Letra e a Voz. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
terça-feira, 21 de maio de 2024
João Paulo II: de ativista midiático a Santo milagreiro na devoção da piedade popular
Osvaldo Meira Trigueiro
Professor Associado aposentado da UFPB. Jornalista Profissional. Membro: Intercom, Rede Folkcom, Comissão Nacional de Folclore, Comissão Paraibana de Folclore/Brasil; Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão/Portugal.
Introdução
Este
artigo tem como objetivo divulgar, parcialmente, resultados de uma pesquisa
empírica em desenvolvimento, no Santuário de Fátima em Portugal, sobre os
ex-votos depositados no grande tocheiro ao lado da Capelinha das Aparições e no
monumento ao Papa João Paulo II. Nessa primeira etapa o destaque é para a
devoção da piedade popular dos peregrinos de diferentes partes do mundo, que
pagam promessas depositando os ex-votos em agradecimento por graças alcançadas
com a intercessão do Santo Papa.
O
ex-voto é o pagamento de promessa que faz o devoto a algum santo ou santa em
agradecimento de uma graça alcançada por cura de graves enfermidades, pela
realização de um bom casamento, por deixar de beber, por passar no concurso
público, a conquista de emprego, da casa própria, aquisição de carro, de uma moto,
por sair com vida de graves acidentes de trânsito ou de trabalho e de tantas
outras conquistas de bens de consumo. O ex-voto é o cumprimento de um contrato
de pagamento de promessa entre o devoto e o sagrado por uma graça alcançada. Portanto,
o ex-voto é uma negociação contratual entre o devoto e o santo ou santa de sua
fé. Albino Lapa, assim define o ex-voto.
Ele é verdadeiramente, sem atavios, o
testemunho material, dum grito aflitivo, expedido das profundezas da alma e do
coração que foi ouvido na hora própria, em prece recolhida, pela salvação dum
ente querido ou de si próprio, num naufrágio, numa guerra, num cativeiro, num
mau encontro, etc. – perigos em que angústia, o sofrimento ou a morte estiveram
em causa (LAPA, 1967, p. 1).
Também
é necessário considerar os seus valores antropológicos, etnográficos, estéticos,
como manifestação folclórica e como um veículo de comunicação popular. A
prática de ofertar objetos às divindades é uma herança dos povos pagãos
vinculada aos cultos naturalistas, principalmente nas mudanças das estações. Sabe-se que os povos do Mediterrâneo há 3.000
anos A.C. já ofertavam as divindades aninais, troféus conquistados nas guerras
por cada vitória. Há vários registros que narram as histórias de soldados que
depois de ganhar as batalhas dirigiam-se em cortejos aos altares dos templos para
depositar as suas armas como forma de ex-voto em agradecimento por conseguir
voltar com vida depois de longas guerras. Essas práticas votivas ao longo dos
anos foram incorporadas ao cristianismo que agregam novos significados relacionados
aos acontecimentos atuais. Neste ensaio o foco principal são os ex-votos
antropomórficos como representações simbólicas do corpo humano inteiro ou parte,
que são depositados no monumento a João Paulo II, em agradecimento por sua intercessão
pela cura de graves enfermidades (SILVA, 1981).
A
aproximação com Fátima
Fui
pela primeira vez ao Santuário de Fátima em 1986 e são dezenas de visitas
nesses quase 40 anos. Rosinha, minha parceira de vida há 45 anos, é do Vilar
dos Prazeres uma pequena povoação portuguesa do Concelho de Ourém, fica certa
de 14 quilômetros da cidade de Fátima e a sua família tem uma forte ligação com
o Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.
São
várias viagens a Portugal, são idas ao Santuário em diferentes estações do ano,
principalmente nos dias 13 de cada mês, de maio a outubro, datas das grandes
peregrinações, dos importantes acontecimentos no recinto do Santuário e na
cidade de Fátima. Não é fácil separar as duas coisas, ora como católico visitante
frequentador do Santuário, ora como investigador, mas sempre com a preocupação de
manter distanciamento, uma certa neutralidade, entre as observações empíricas
para o desenvolvimento da pesquisa sobre os ex-votos como veículo de
comunicação popular e a do católico que vai ao Santuário participar das celebrações
religiosas com os familiares. Fátima, em Portugal, é considerado um dos maiores
Santuários Marianos do Mundo visitado por milhares de peregrinos e turistas de
todos os continentes.
João
Paulo II: o santo da devoção popular
O
artigo tem como objetivo mostrar com registros fotográficos os peregrinos que
rezam e ofertam ao Santo Papa João Paulo II suas representações simbólicas de
pagamento de promessas através dos ex-votos depositados no monumento localizado,
estrategicamente próximo à Basílica da Santíssima Trindade e da Cruz Alta. O
monumento fica numa das principais entradas de acesso ao recinto do Santuário,
por onde passa grande número de pessoas. Com a instalação da estátua do Santo
Papa o recinto do Santuário ganhou mais um espaço de orações, de pagamento de
promessas e como consequência maior concentração de peregrinos e turistas no entorno
da estátua. Nos últimos anos observa-se que um dos lugares mais frequentado no Santuário
é a estátua de bronze de João Paulo II, com 3,5 metros de altura de autoria do
polonês Czeslaw Dzwiga e inaugurada em outubro de 2007 dois anos depois de sua
morte em 2005. Inúmeros peregrinos pagam promessas, depositam ex-votos na base
do monumento. Ao depositar o ex-voto no lugar sagrado o peregrino cumpre o
compromisso contratual de agradecimento de sua promessa considerada como paga,
do desejo alcançado, do pedido da súplica atendida com a intercessão de um
santo ou uma santa. O ex-voto é o anúncio do milagre para conhecimento de quem
visita os lugares sagrados de romarias. Ou seja, é o desejo do devoto divulgar
a graça alcançada, tornar público o pagamento da promessa e transmitir
credibilidade com o santo ou santa da sua devoção (TRIGUEIRO, 2006). Quanto mais
ex-votos depositados para determinado santo ou santa, maior é a demonstração de
graças alcançadas e a fama de milagreiro ou milagreira circula rapidamente nas
redes de comunicação popular/alternativa operadas por peregrinos e turistas (BENJAMIM,
2002). Não é mero acaso a procura ao monumento do Papa João Paulo II em Fátima,
sua fama de milagreiro espalha-se por várias partes do mundo. No Brasil o “Papa
de Fátima” o “Papa Carioca” o “Papa do Povo” o “Papa dos Jovens” o “Papa do
Mundo” está entre os santos da devoção da piedade popular. No Santuário de
Nosso Senhor do Bonfim na Bahia (BA), no Santuário de Nossa Senhora da Penha em
João Pessoa (PB), em tantos outros lugares de romarias encontra-se fotos do
Santo Papa na sala dos milagres em agradecimento por graças alcançadas. No
Nordeste brasileiro a devoção a João Paulo II é representada nos diferentes lugares
de peregrinações com fotos e cartas depositadas nas salas dos milagres. João
Paulo II, tem a sua história de vida e morte narrada pelos poetas populares
brasileiros em mais de uma dezena de folhetos de cordéis publicados (MELO, 1982;
SOUSA, 1984). É desse santo contemporâneo, que morreu em 2005, beatificado pelo
seu sucessor Papa
Bento XVI em 2011 e em 2014 João Paulo II é canonizado pelo Papa Francisco. Desta
forma, este ensaio fotográfico pretende deixar documentada a devoção a João
Paulo II no Santuário de Fátima, que tem na sua estátua um local de acolhimento
de peregrinos que rezam e pagam promessas.
Durante
os últimos dias, foram muitos os gestos dos peregrinos no Santuário de Fátima
junto do monumento a João Paulo II, sinais da devoção ao Papa que o seu
sucessor Bento XVI beatifica amanhã, 1 de Maio. Um dos locais centrais desta
devoção tem sido o monumento a João Paulo II, inaugurado no adro da Igreja da
Santíssima Trindade em Outubro de 2007. Flores, velas, acenos, sorrisos e
lágrimas têm sido os sinais de gratidão e de amor manifestados. Em comunhão com
os sentimentos dos peregrinos, o Santuário de Fátima procedeu a intervenções
naquele local, de forma a assinalar a beatificação daquele que é conhecido como
“o Papa de Fátima”. Procurando manter um registo de grande simplicidade, foram
colocados junto da escultura uma floreira e um tocheiro. Esta estátua, situada
a nordeste da nova igreja, é da autoria do polaco Czeslaw Dzwigaj. É de bronze
e mede 3,5 metros de altura. Na base tem inscritas as palavras de João Paulo
II, proferidas em Fátima em Maio de 1982: “Vai para a Santíssima Trindade este
meu pensamento adorador, explicitado nesta terra abençoada de Fátima: Bendito
seja Deus, rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou!” (FÁTIMA, 30/04/2011).
João Paulo II, foi eficaz na resolução e
mediação de conflitos religiosos e políticos, reafirmando a autoridade papal no
contexto mundial, foi polêmico quando tomou decisões que desagradou determinados
segmentos progressistas da igreja católica, principalmente os praticantes da
Teologia da Libertação. Mesmo assim, com o seu carisma, conquistou o seu espaço
como líder religioso e aproximou a igreja aos fiéis devotos do catolicismo
popular. João Paulo II foi um Papa
polêmico, conservador com relação a igreja e moderno com relação a sociedade
midiatizada, participou de importantes transformações políticas e religiosas,
que marcaram o curso da história contemporânea na era do mundo globalizado
pelos meios de comunicação e da informação. Portando, João Paulo II foi um
ativista midiático que operou diferentes canais de comunicação como estratégia
de aproximar a igreja, cada vez mais, do povo católico.
João Paulo II: O ativista midiático
Com o objetivo de obter êxito nas suas ações durante as viagens pastorais pelo mundo, o Papa João Paulo II, apropriava-se das potencialidades da grande mídia, dos canais de comunicação alternativa/popular e usou, de forma eficaz, a internet no período inicial da sua expansão como sistema de comunicação. Nos diversos percursos pelo mundo João Paulo II saiu da Itália cerca de 104 vezes ao estrangeiro o equivalente a mais de 500 dias fora do Vaticano, visitou cerca de 130 países e fez mais de 140 viagens pelo interior da Itália. No Brasil esteve por três vezes, em 1980, 1991 e 1997 e por onde passava levou milhares de pessoas às ruas.
Ao Santuário de Fátima foi três
vezes, 1982, 1991 e 2000, nas duas primeiras como peregrino para agradecer a
intercessão de Nossa Senhora do Rosário de Fátima por salvar a sua vida no
atentando de 13 de maio de 1981 na Praça de São Pedro, no Vaticano. Viajou mais de um milhão e 300 mil quilômetros que dariam aproximadamente
29 voltas à terra e percorrer três vezes a distância da terra a lua (CUNHA, p. 69, s.d.). João Paulo II teve um longo
papado, de 1978 a 2005, participou das grandes mudanças socioculturais,
políticas, dos avanços das tecnologias da comunicação e da informação. Ouviu
vários povos, dialogou com representantes de diferentes religiões, como
muçulmanos, hindus, ortodoxos, judeus e tantas outras religiões. Foi um Papa que atuou como ativista midiático que soube usar a
mídia operando estratégias que tornariam suas viagens acontecimentos
midiáticos. Foi o primeiro papa a se comunicar pelas redes sociais ao inaugurar
o site da Santa Sé em 30 de março de 1997 e em 2001 enviando o primeiro e-mail oficial
para todos os bispos nas diferentes partes do mundo (SARDELOTTO, 2017, p. 25). João Paulo II demonstrava humildade ao beijar
o chão quando de sua chegada em terras estrangeiras,
a capacidade de inventar bordões visuais, usar o humor para arrancar sorrisos
do grande público e muitas vezes “fugindo” dos protocolos do Vaticano. Era o Papa
que falava para o povo (TRIGUEIRO, 2008,
p. 139-162). João Paulo II foi um papa da sociedade
do espetáculo (DEBORD, 1997), um pároco do
mundo, soube tirar partido de todos os meios de comunicação social para aproximar a igreja católica dos
diferentes povos (PUNTEL, 2019). Assim João Paulo II foi respeitado pelas lideranças
mundiais, das diferentes tendencias ideológicas e amado pela maioria do povo
católico.
A pesquisa empírica no recinto do Santuário e na cidade de Fátima
São anos de pesquisas empíricas, são vários momentos de observações e análises em espaços/tempos diferentes das celebrações religiosas, de outros acontecimentos não religiosos no Santuário e na cidade de Fátima. Não é só o recinto do Santuário que possibilita melhores observações e interpretações das conversas entre os peregrinos, turistas e os habitantes locais. É importante participar, ouvir as conversas nos lugares onde circulam as interações de sociabilidades ativas nas redes de comunicação cotidianas (MARTINHO-BABERO, 1997) e nas redes da folkcomunicação (BELTRÃO, 1980). É nesses lugares de sociabilidades, de interações nas redes de comunicação, principalmente operadas por peregrinos, que contam suas histórias de graças alcançadas, a devoção a Nossa Senhora de Fátima e ao Santo Papa João Paulo II. A circulação das conversas entre peregrinos, fora do recinto do Santuário, auxilia compreender o “tamanho” da fé dos que vão a Fátima para rezar e pagar promessas. São as histórias das curas de enfermidades, por terem saído com vida de graves acidentes, por alcançarem os diferentes desejos, são as mediações dialógicas de interações através das orações, da publicização das graças alcançadas em cada ex-voto depositado no grande tocheiro ao lado da Capelinha das Aparições e no monumento ao Santo Papa João Paulo II. São entrevistas, testemunhos e as conversas entre os conversadores nos diferentes recintos do Santuário e da cidade de Fátima. São conversas que se espalham, principalmente de “boca em boca” nos restaurantes, nos bares, nos cafés, nas lojas de venda de artigos religiosos e em tantos outros lugares. Melhor dizendo, ouvindo, participando dos diálogos, das conversas “jogadas fora” e sem maiores formalidades (TARDE, 1992).
Na pesquisa empírica o trabalho de
campo é imprescindível para que o investigador possa compreender, na medida do
possível, as relações dos diferentes fenômenos sociais observados, é uma busca persistente para encontrar os
melhores caminhos metodológicos e sempre com o cuidado para não cair na vala comum.
Nos últimos cinco anos, 2018, 2019, 2022, 2023 e início de 2024 concentrei a pesquisa
empírica nas observações e documentação fotográfica dos peregrinos que rezavam
e depositavam os ex-votos ao pé da estátua do Santo Papa. No desenvolvimento do
estudo empírico o uso da fotografia como ferramenta de pesquisa de campo é de
fundamental importância no registro de informações, possibilita documentar e compreender
os locais das conversações entre peregrinos, turistas e moradores locais. Possibilita
melhor observar as interações de sociabilidades que circulam no campo do senso
comum, como lugares de produções dos saberes populares onde, também, se aprende
e ensina as práticas da religiosidade da piedade popular. A fotografia como
documentação das observações flagradas de um determinado acontecimento, em um
determinado tempo, dá suporte
para uma melhor análise e interpretação dos dados quantitativos e
qualitativos coletados no instante dos fatos narrados e da encenação
performática do pagamento de promessas. Aqui, a fotografia compreendida como registro
auxiliar do fato, a representação do acontecimento, das experiências culturais
e religiosas. O monumento a João Paulo II, a cada ano que passa vem atraindo
maiores números de peregrinos que pagam suas promessas e depositam ex-votos de
agradecimento pela graça alcançada, o que justifica o seu reconhecimento como
milagreiro, como santo popular no Brasil e em Portugal. Ou seja, João Paulo II
o “Papa do Povo,” o “Papa dos Jovens” o “Papa de Fátima,” o “Papa de Maria”, o
“Papa Carioca”.
Referências
BENJAMIN, Roberto. Devoções populares não-canônicas na América Latina: uma proposta de pesquisa. In: VI Congresso Latinoamericano de Ciencias de la Comunicación – ALAIC, 2002.
CUNHA, Secundino. A vida santa de João Paulo II. Portugal: Presselivre, Imprensa Livra AS, s.d.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
FÁTIMA, Santuário. Estátua de João Paulo II acolhe a atenção dos peregrinos. Disponível em: < https://www.fatima.pt/pt/news/estatua-joao-paulo-ii-acolhe-atencao-peregrinos>. Acesso em 30 de nov. 2023.
MARTÍN-BABERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFJR, 1998.
MELO, Veríssimo. A visita do Papa ao Brasil: Através da literatura de cordel. Natal (RN): Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN, 1982.
PUNTEL, Joana T. Comunicação: diálogo dos saberes na cultura midiática. São Paulo: Paulinas, 2010.
SILVA, Maria Augusta Machado da. Ex-votos e orantes no Brasil: leitura museológica. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 1981.
TARDE, Gabriel. A opinião e as massas. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
TRIGUEIRO, Osvaldo Meira. Folkcomunicação e ativismo midiático. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 208.
TRIGUEIRO, Osvaldo Meira. O ex-voto como veículo de comunicação popular. In: Folkcomunicação na área global (org.). SCHMIDT, Cristina. São Paulo: Ductor, 2006.
SARDELOTTE, Moisés. E o verbo se fez rede: religiosidade em construção no ambiente digital. São Paulo: Paulinas, 2017.
LAPA, Albino. Livro de ex-votos portugueses. Lisboa: 1967.



























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