quarta-feira, 21 de abril de 2021
A Coronavac: graças a Deus
a vida é assim
tem começo tem fim
a vida que chega
a vida que sai
a vida que passa
a vida que tem pernas curtas
a vida que se esconde da morte
a vida dos altos e baixos
a vida das alegrias e tristezas
a vida planejada pro futuro
a vida bem vinda no ano vindouro
a vida vivida depois da vacina
graças a Deus.
(Tomei a segunda dose da vacina Coronavac no dia 19/4/2021)
quarta-feira, 14 de abril de 2021
A Cata das Promessas: o ex-voto como veículo folkcomunicacional
(História pra contar )
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| Parque Religioso Cruz da Menina |
Perto a
cidade de Patos
existe
uma romaria
chamada
Cruz da Menina
que
vem gente todo dia
conhecer,
pagar promessa
de fora e da freguesia.
(Antônio
Américo de Medeiros, poeta popular)
Narro
agora uma breve história da minha ligação religiosa e especialmente como
pesquisador da Rede Folkcom – Rede de Estudos e Pesquisa em
Folkcomunicação.
A
história da Cruz da Menina sempre fez parte do meu imaginário religioso e
cultural desde a infância aos dias atuais. Eram frequentes, na casa dos meus
pais e da minha avó materna, as narrativas das histórias de curas das mais
diferentes doenças, dos mais variados desejos alcançados por parentes,
conhecidos e até de romeiros de fora da freguesia. São incontáveis os
fatos narrados através dos ex-votos depositados nas duas salas dos milagres na
Cruz da Menina.
Visitei
inúmeras vezes o Parque Religioso da Cruz da Menina, que está localizado no
município de Patos, cidade onde nasci, ás margens da BR 230 e cerca de 300 km de João Pessoa, a
capital do Estado da Paraíba/Brasil, por acreditar no poder de cura da
Francisca, da fama de milagreira, mas também por ser um lugar agradável para o
descanso na caminhada da casa dos meus pais da Rua Pedro Firmino, no centro de
Patos, até ao sítio da minha família que ficava próximo da fazenda Trapiá e da
capelinha com a imagem de Francisca a menina milagreira. Em Campo Alegre vivi
períodos felizes da infância e parte da minha adolescência, onde ouvi relatos
dos romeiros que por lá passavam rumo à Cruz da Menina, seguindo a linha do
trem vindo de vários outros sítios da redondeza. E ao longo dos anos fui
construindo uma memória sociocultural deste
lugar considerado sagrado pela devoção do catolicismo popular.
A
minha ligação com a Cruz da Menina continua forte por dois aspectos, o primeiro
por ser um lugar místico e cheio de boas energias para quem acredita e eu
continuo acreditando nos milagres da Francisca, o segundo por ser um lugar de
memórias, de testemunhos deixados pelos peregrinos nas salas dos milagres que
através dos ex-votos narram diferentes acontecimentos e anunciam as graças
alcançadas.
Portanto,
neste artigo abordo a importância dos ex-votos como expressão de fé depositados
nos lugares de agradecimentos por graças alcançadas e principalmente como
narrativa dos acontecimentos que levaram os romeiros a pagarem promessas aos
santos e santas de suas devoções.
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| Ex-votos Cruz da Menina Foto do acervo pessoal |
Sem
dúvida, tudo começa com essa forte ligação que tenho com a Cruz da Menina e
especialmente com a sala dos milagres, a exemplo do que afirma o poeta popular
Antônio Américo: O quartinho dos milagres/é todo cheio de curas/mostrando
grandes doenças/de diversas criaturas/dos aleijados que sofriam/vão deixar lá
as molduras.
A
Cruz da Menina: o início dos estudos dos ex-votos
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| Pq Religioso Cruz da Menina-Patos/PB Foto do acervo pessoal |
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| Ex-votos Foto do acervo pessoal |
O
professor pernambucano Luiz Beltrão explica e classifica a existência
de outras categorias de comunicação jornalística além das vigentes na época, jornalismo
informativo, jornalismo opinativo, como manifestações de comunicação de caráter
popular: informação oral, informação escrita e informação opinativa
difundidas por meios de comunicação do próprio povo e que têm uma vinculação
direta entre o folclore e a comunicação popular e que mais adiante viria a se chamar Folkcomunicação. É daí que vem o conceito
desse novo modelo de comunicação assim definido: Folkcomunicação é, assim, o
processo de intercâmbio de informações e manifestação de opiniões, ideias e
atitudes da massa, através de agentes de opiniões e meios ligados direta ou
indiretamente ao folclore (BELTRÃO, 2002, p. 79). O artigo de 1965 sobre
ex-voto foi o ponto de partida para a formulação da teoria da folkcomunicação
desenvolvida por Luiz Beltrão e base fundamental para os meus estudos.
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| Cruzeiro do Pq Religioso C. da Menina Foto do acervo pessoal |
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| Antiga Sala dos Milagres-Cruz da Menina Foto do acervo pessoal |
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| Ex-votos do acervo pessoal |
Em
1977, num final de tarde chegando lá para mais uma visita, já como Diretor da
Divisão de Folclore da Coordenação de Extensão-UFPB/PRAC/COEX, e com a intenção
de recolher algumas peças para o projeto de estudos sobre os ex-votos que
estávamos desenvolvendo, precisei de um certo tempo para enfrentar o receio ou
mesmo o respeito que tinha em recolher as peças deixadas pelos devotos na Cruz
da Menina
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| Ex-votos-Cruz da Menina Foto do acervo pessoal |
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| Ex-voto-Cruz da Menina Do acervo pessoal |
Portanto,
a promessa estava cumprida e o agradecimento à menina Francisca estava feito, o
objeto tinha sido deixado para trás e dona Odília necessitava de novos espaços
na sala das promessas e assim era feito e assim foi organizado um acervo
importante como referência para os diferentes estudos e pesquisas.
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| Ex-votos na Cruz da Menina Foto do acervo pessoal |
Não
foi uma tarefa fácil incluir na academia os estudos e as pesquisas do folclore
e da cultura popular em meados dos anos 70 do século passado, estávamos entre a
cruz e a espada, de um lado os folcloristas tradicionais que não
aceitavam os processos de atualização – as inovações culturais – das
manifestações folclóricas e populares com os avanços das novas tecnologias e
dos meios de comunicação social, principalmente da televisão que avançava por
quase todo território nacional e com forte influência nos hábitos e costumes
dos brasileiros, inclusive nas manifestações culturais tradicionais. Por outro
lado, determinados segmentos da academia achavam inadequado os estudos e as
pesquisas do folclore e da cultura popular no âmbito das universidades. Mas um
grupo de professores, de pesquisadores, de técnicos e de servidores da UFPB
seguiu em frente ultrapassando grandes obstáculos e em 1978 fundaram o NUPPO –Núcleo
de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular que atualmente é uma das
referências na UFPB nos estudos e nas pesquisas do folclore e da cultura
popular (https://www.ufpb.br/nuppo).
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| Sala dos Milagres-Cruz da Menina Foto do acervo pessoal |
As
festas religiosas sagradas e profanas, as romarias e os lugares de pagamentos
de promessas estão sempre presentes nas minhas pesquisas no campo da
folkcomunicação e como não poderia deixar de ser os ex-votos como fonte de
informação dos anúncios das promessas. Na atualidade os estudo e as pesquisas
dos ex-votos na folkcomunicação ampliaram os campos de observações e análises
com o objetivo de compreender essa zona hibrida entre as manifestações
religiosas populares do pagamento de promessas com os ex-votos tradicionais e o
pagamento de promessas com os ex-votos através de ferramentas midiáticas. Portanto,
os ex-votos não são apenas representações simbólicas nas esculturas populares
de madeira e de barro, como era antigamente a predominância nas salas das promessas,
na atualidade as peças industrializadas de parafina, as fotos das câmeras
digitais, CDs, DVDs, Pen Drives e velas eletrônicas estão espalhados pelas
salas de promessas e não seria diferente na Cruz da Menina.
Com a
globalização do mundo contemporâneo, ao invés da tão propagada homogeneização
cultural, do desaparecimento das culturas locais, o que estamos vendo é uma
nova ressignificação das manifestações locais e consequentemente do nosso
folclore, das culturas populares. Um exemplo dessas novas clivagens é o
aparecimento das diversidades folkcomunicacionais, da milenar manifestação
religiosa dos ex-votos em santuários, capelas, grutas, cemitérios, cruzes de
beiras de estadas, cruzeiros nos altos dos morros e em tantos outros lugares de
romarias que se espalham em áreas urbanas e rurais de todas as regiões do país.
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| Ex-votos, fitas Foto do acervo pessoal |
Em
dezembro de 2019 quando voltei ao Parque Cruz da Menina constatei que essa zona
híbrida dos ex-votos tradicionais e os ex-votos midiáticos, os fabricados em
série, estão juntos depositados nas duas salas das promessas, assim como as
fitas estilo Nosso Senhor do Bom Fim, uma tradição marcante do povo baiano,
estão também penduradas em diferentes lugares na Cruz da Menina.
Na sala dos milagres a lógica
semântica é construída pelos peregrinos, é um espaço quase sempre anexo ao
santuário onde o pagador de promessa tem toda a liberdade de expressão. É o
lugar onde são depositadas as promessas, os milagres representativos dos
desejos dos devotos em relação ao santo ou santa de sua devoção. São práticas
religiosas, que em determinadas ocasiões, transcendem as classes sociais onde
encontramos agradecimentos de poderosos e ricos ao lado das graças recebidas
também pelos marginalizados socialmente.
Portanto, ainda alimento a
esperança de que o Parque Religioso Cruz da Menina se fortaleça como mais um importante destino
de romaria e o museu dos ex-votos como um centro de referência documental das
histórias narradas através dos diferentes ex-votos ali deixados.
Este artigo foi originalmente publicado na Revista nº 8 do Instituto Histórico e Geográfico de Patos, edição de dezembro de 2020.
Referências
BENJAMIN, Roberto. devoções populares não-canônicas na América Latina: uma proposta de
pesquisa. In: VI Congreso Latinoamericano de Ciencias de la Comunicación – ALAIC
2002. Santa
Cruz de la Sierra, Bolivia, 2002.
BELTRÃO, Luiz. O ex-voto como veículo jornalístico.
In: Comunicações e Problemas. Recife:
ICINFORM/Universidade Católica de Pernambuco, n. 1, 1965. 72 p.
BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação: um estudo
dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressões de ideia.
Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001.
MARTINS, J; TRIGUEIRO, O. O ex-voto: documento de fé no Santuário de Nossa Senhora da Penha. Cláudio A. de Oliveira, Clarisse Prêtre (organizadores). Se eu quiser falar com Deus: histórias e lugares dos ex-votos. Curitiba, PR: CRV, 2018.
MEDEIROS, Antônio Américo. Cruz da Menina: história
completa.
TIGUEIRO, Osvaldo Meira. O ex-voto como veículo de
comunicação popular. In:
Folkcomunicação na arena global: avanços teóricos e
metodológicos/Cristina Shmidt (organizadora). São Paulo: Ductor, 2006.
TRIGUEIRO, Osvaldo Meira. A cata das promessas: o
ex-voto como veículo folkcomunicacional. Revista do Instituto Histórico e
Geográfico de Patos. Patos – PB, v. 8l, n.8, dez. 2020.
SAIA, Luiz. Escultura popular brasileira. São Paulo: Gazeta, 1944.
domingo, 14 de fevereiro de 2021
Hoje tem "Saca Rolha" no Céu
(História pra contar)
"As águas vão
Rolar
Garrafa cheia eu
não quero ver
sobrar
Eu passo mão na
saca, saca, saca
rolha
E bebo até me
afogar
Deixa as águas
rolar"
Nessa minha viagem de três noites e três dias, para encontrar o imaginário e maravilhoso “País de São Saruê”, quando parei para dormir na terceira e última noite sonhei com o tradicional bloco do carnaval “Saca Rolha” fundado pelo meu pai, Seu Trigueiro, com um grupo de amigos e animado pela Orquestra do maestro Hermes Brandão, que animou por muitos anos o carnaval de Patos das Espinharas na Paraíba.
Meu pai foi um grande folião, brincava os três dias de carnaval de rua, nos clubes sociais, era incrível, não parava, e no meu sonho ele estava inconformado, mas compreendia a atual situação que todos nós estamos vivendo, com a proibição do carnaval agora em 2021.
Durante três noites e três dias, Seu Trigueiro, tentava com os santos a liberação da saída do seu bloco “Saca Rolha” lá no céu em caráter especial para esse domingo de carnaval já que aqui não podemos celebrar as festas momescas.
A cidade de Patos ficava na expectativa para ver o bloco “Saca Rolha’ desfilar pelas ruas, as visitas nas residências dos foliões que convidavam, agendando o dia o horário, para receber o bloco com uma recepção festiva no interior das casas com muitas bebidas e comidas. O “Saca Rolha” por algumas horas fazia uma grande festa para os familiares e os convidados ao som de muito frevos e a tradicional marchinha de carnaval Saca Rolha que era o tema da origem do bloco de Seu Trigueiro.
Sonhei na terceira noite dessa viagem encantada que o “Saca Rolha” foi liberado para sair no domingo de carnaval e que iria animar a festa no céu, com a licença dos santos festeiros do nosso catolicismo popular, porque por lá não tem peste, não tem Covid-19, não tem tristeza, não tem doenças e muito menos mortes.
Portanto, especialmente neste domingo de carnaval, com toda certeza, o bloco “Saca Rolha” vai sair pelas ruas do céu com muito mais animação, com mais alegria pois estão com Seu Trigueiro os filhos Alberto e Mário Trigueiro, os genros Roldão Caroca, Petrônio Lucena e Beca Palmeira que, como ele, foram grandes foliões.
E assim continua a história da minha vigem em busca do “País de São Saruê”, essa viagem encantada e maravilhosa para um lugar quase igual ao céu que não tem peste, não tem Covid-19, não tem doença e muito menos mortes.
________________
OBS: Foto - Bloco Saca Rolha (ao centro Seu Trigueiro), Arquivo de família
quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
Festas Populares em Tempo de Pandemia
Este foi o tema da entrevista que dei ao professor doutor Antonio Fausto Neto para o CISECO - Centro Internacional de Semiótica e Comunicação e que compartilho por aqui.
domingo, 12 de julho de 2020
Luiz Antônio Barreto uma amizade de 36 anos
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| Roberto, Osvaldo, Luiz Antonio e Bráulio |
Não
fomos como convidados da organização do evento e achamos melhor ficar mais afastados,
mas com a intenção de, aos poucos, nos aproximarmos dos convidados e dos grupos
folclóricos que lá se encontravam. Eu, um jovem que tinha colado grau no curso de
jornalismo em dezembro de 1975 estava deixando o período de estagiário para assumir
como professor da Universidade Federal da Paraíba, e o professor Roberto
Benjamin já era referência no campo dos estudos
do folclore, conhecido de alguns ilustres convidados e eu estava iniciando a minha trajetória de pesquisador, que se alongou por
toda minha vida acadêmica e sem dúvida foi no Encontro Cultural de Laranjeiras que dei a partida inicial para
as pesquisas empíricas e teóricas.
Chegando
em Laranjeiras próximo do horário previsto para abertura do evento encontramos
os professores e pesquisadores pernambucanos Valdemar Valente e Mário Souto
Maior, que além do Roberto Benjamin eu também os conhecia e foi um grande alívio
para mim encontrar os dois ilustres convidados que animadamente faziam elogios às nossas
atividades como estudiosos e pesquisadores do folclore ao nos apresentarem a Luiz Antônio Barreto,
idealizador e coordenador do evento, e a Bráulio Nascimento, presidente da
Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro/CDFB. Esse encontro foi um acontecimento
que marcou muito a minha vida como professor, pesquisador do folclore e da
cultura popular, da comunicação de massa e da folkcomunicação, campos de estudos
de meu interesse até hoje.
Roberto
Benjamin, foi meu professor na graduação no curso de jornalismo e na pós-graduação
como orientador no mestrado e sempre fez parte desde o início da minha formação
acadêmica. Mas a partir daquela noite de 28 de maio de 1976 Luiz Antônio
Barreto e Bráulio Nascimento incorporaram, com muita honra, o time dos meus
grandes mestres e com eles sempre estava apreendo como fazer uma investigação
de campo, ser ético e respeitar os detentores dos sabres populares. E assim foi
por longas décadas de convivência, de amizade e respeito, muitas vezes com
divergências de opiniões e definições de conceitos.
Este
depoimento é para prestar a minha homenagem a Luiz Antônio Barreto, porém não
podia deixar de citar esses dois importantes mestres e amigos, Roberto Benjamin
e Bráulio Nascimento, que quase sempre estávamos juntos participando de
congressos, simpósios, reuniões, projetos de pesquisas e de tantos outros
eventos culturais em diferentes lugares, mas foi nos encontros culturais da
histórica cidade de Laranjeiras que nossa amizade consolidou-se e junto vieram
tantos outros que gostaria de citar, até porque continuamos mantendo contatos e
resguardando o legado deixado por Luiz Antônio Barreto, assim como: Jackson da
Silva Lima(SE), Algaé D’Ávila Fontes (SE), Beatriz Góis Dantas (SE), Lindolfo
Amaral (SE ), Luiz Fernando Soutelo (SE), Antônio Alves do Amaral (SE), Verônica
Nunes (SE), José Maria Tenório (AL) Cáscia
Frade (SP), Maria Thereza de Camargo (SP), Marlei Sigrist (MS), Toninho Macedo
(SP), Severino Lucena (PE), José Fernando Sousa e Silva (PE), Affonso Furtado (RJ),
Eleonora Gabriel (RJ) José Ronaldo de Menezes – o mestre Zé Rolinha (SE) e
tantos outros que constituem uma rede de estudiosos e pesquisadores que deram
significativas contribuições para os novos entendimentos do folclore e da
cultura popular na atualidade.
Luiz
Antônio Barreto, historiador, jornalista, folclorista e um importante aglutinador
de pessoas com opiniões divergentes e com essa capacidade mediadora fez do
Encontro Cultural de Laranjeiras um dos mais importantes e longínquos eventos
temáticos sobre o folclore e cultura popular no Brasil. O encontro de Laranjeiras rompeu a barreira dos
40 anos ininterruptos, por lá passaram ilustres intelectuais brasileiros e
estrangeiros que deixaram importantes contribuições na formação de várias
gerações de estudiosos, de pesquisadores e principalmente de jovens, assim como
eu que cheguei para participar do primeiro encontro cultural como aprendiz, continuo
participando e aprendo cada vez mais.
O
Encontro Cultural de Laranjeiras, possibilita o diálogo para uma melhor
compreensão de novos entendimentos do folclore e da cultura popular, onde se ouvem
opiniões diversas, narrativas de novas experiências, de importantes ideias e de
fundamentações teóricas (palestras, seminários, etc.) e práticas (oficinas, minicursos
e as trocas de saberes com os mestres populares). Luiz Antônio Barreto, foi o
grande idealizador do Encontro Cultural de Laranjeiras e sempre teve o apoio
dos seus pares sergipanos e de tantos outros estudiosos de diferentes regiões
do Brasil, porque acreditavam na sua proposta, no seu projeto de pesquisa, de registro,
de divulgação e de apoio aos grupos folclóricos. Era impressionante o poder de
articulação e de diálogo que Luiz Antônio tinha com autoridades públicas e com
os empresários, não media esforços para conseguir o apoio, os patrocínios
necessários para a realização do encontro de Laranjeiras, é bom que se diga, sem
fazer concessões dos seus objetivos e mesmo em tempo de crises políticas e
financeiras o evento acontecia.
Ao
longo dos anos o encontro foi ampliando o seu espaço para divulgar Laranjeiras
como uma cidade detentora de importantes patrimônios culturais materiais e
imateriais. Um dos principais objetivos do encontro é reunir estudiosos e
pesquisadores da nossa cultura popular para conhecer de perto as manifestações
dos grupos folclóricos, as igrejas, os casarões, o mercado, o trapiche e as
ruas históricas de cidade. O encontro cultural contribuiu ainda mais para a
projeção de Laranjeiras no cenário nacional e internacional. Assim como disse
Luiz Antônio Barreto:
Quando a somação do
Governo do Estado com a Prefeitura Municipal, apoiada pela então Campanha de
Defesa do Folclore Brasileiro, Laranjeiras foi a destinatária de um conjunto de
ações, em torno do I Encontro Cultural, como a restauração da velha Casa de Laranjeiras
e instalação do Museu Afro Brasileiro de Sergipe, iniciando uma série de
restauros que devolveu ao uso público monumentos sociais, como o Mercado da
cidade, o Trapiche, a Casa da Câmara, bem como recuperou ruas de calçamento de
pedra, enquanto pavimentou outras, tornando melhor o piso da cidade. Com o
Encontro Cultural de Laranjeiras Sergipe foi grande beneficiado, porque foram
gravados, pela primeira vez, os sons dos grupos folclóricos e editados discos,
livros, cadernos de folclore, dando visibilidade a um variado elenco de grupos,
cada um com sua característica (citação do artigo publicado em
01/01/2000/Infonet).
O
Encontro Cultural de Laranjeiras não pertence só ao povo sergipano é um
patrimônio de todos nós, é uma sala de aula aberta aos estudiosos,
pesquisadores, aos mestres e brincantes das manifestações das culturas
populares. Como afirmou Bráulio Nascimento:
Na verdade, não é
possível falar do desenvolvimento dos estudos da cultura popular no Brasil sem
passar por Laranjeiras. Muitas ideias aqui expostas e debatidas constituíram o
núcleo de trabalhos de maior fôlego, que motivaram e estimularam debates em
outros pontos do País, em outros contextos culturais (citação do artigo
publicado em 2005 nos 30 anos do Encontro Cultural).
No
encontro de 1977 cerca de 200 grupos estiveram presentes durante a realização
do evento e Laranjeiras passou a se chamar, simbolicamente a capital do
folclore brasileiro no mês de janeiro. A professora e pesquisadora Aglaé
Fontes, na apresentação da publicação comemorativa dos 20 anos do encontro
afirma que:
Ao longo dos 20 anos O Encontro
Cultural de Laranjeiras, vem se constituindo um foco de resistência cultural em
defesa do folclore. Com as mais diversas formas de ver, pesquisadores e
estudiosos da cultura popular, apresentam, a partir de temas, informações e
aprofundamento de estudos, que fazem do simpósio um fórum aberto das discussões
de ideias (citação do texto de apresentação da publicação dos 20 anos do
encontro).
Portanto,
o evento foi crescendo tomando demissões que extrapolam o território da cidade
histórica de Laranjeiras e do seu entorno, ultrapassando o território sergipano
e passa a ser reconhecido por instituições culturais, estudiosos e
pesquisadores nacionais e internacionais. Sou testemunha ocular da história do
Encontro Cultural de Laranjeiras, não só por participar do primeiro realizado
em maio de 1976 e em tantos outros, mas também fazia parte de um pequeno grupo
que gozava da amizade, da confiança e do
carinho de Luiz Antônio conquistados durante os 36 anos de muitos encontros
alegres e tristes porque nem tudo foi festa. Nos últimos anos Luiz Antônio já
não participava do encontro em Laranjeiras achava que o objetivo principal do
evento era a valorização dos grupos folclóricos tradicionais e que estavam
sendo menosprezados pelas autoridades locais. Ou seja, os grupos folclóricos
não são mais os protagonistas do evento, agora são os coadjuvantes da
festa.
O
tema central do encontro em 2018 foi, Nosso palco é a rua, mas os camarotes e
os palcos patrocinados pela administração municipal é que tomaram conta das
ruas de Laranjeiras para apresentações de shows artísticos predominantemente de
cantores e cantoras de músicas sertanejas e os grupos folclóricos tradicionais ficaram renegados e a festa já não
é mais deles com era desejo do seu idealizador e de sua equipe de apoio. Nada contra
qualquer gênero de música e de show artístico, mas cada qual no seu tempo e
espaço e Barreto não concordava com a secundarização dos grupos folclóricos e
com a falta de apoio a eles.
O
tempo e o espaço do Encontro Cultural de Laranjeiras, das manifestações dos
grupos folclóricos, da Festa de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário
celebrada no dia de Reis, deveria ser respeitado pelas autoridades civis e
religiosas. O volume alto do som, que durante o dia ecoa dos palcos, abafava as
falas dos conferencistas e dos debates que se realizavam no simpósio e, de
noite, abafava as músicas e danças dos grupos folclóricos. Mas, assim mesmo a
Taieira, a Chegança e o Cacumbi saíram em cortejo, no domingo pela manhã, rumo
à igreja de São Benedito para participar da missa de coroação das rainhas de
Nossa Senhora do Rosário e da Taieira, percorrendo as ruas desviando ora dos
automóveis, ora dos palcos instalados nas esquinas, nas praças e até no meio
das ruas numa verdadeira caminhada de obstáculos até chegarem à igreja. E essas
atitudes adotadas pelas últimas administrações do município de Laranjeiras
foram afastando Luiz Antônio do encontro cultural.
O
meu último encontro presencial com Luiz Antônio Barreto, foi em janeiro de 2012
no Instituto Tobias Barreto de Educação e Cultura-ITBEC, instalado no prédio da
Biblioteca Central da Universidade Tiradentes, quando estava totalmente
dedicado às atividades do ITBEC cheio de ideias para novos projetos de curto e
médio prazos, mas não sentia aquele entusiasmos quando falávamos do encontro
cultural de Laranjeiras, das políticas públicas de apoio às culturas
tradicionais. Foi um dia de boas conversas, de recordação dos acontecimentos
que participamos, a saudade de alguns amigos que não estavam mais aqui com a gente,
isso tudo durante as quase duas horas andado pelas instalações do ITBEC. Fomos
almoçar e continuamos conversando e já no final da tarde deixou-me no hotel e nos
despedimos com um até breve e jamais poderia imaginar que seria o nosso
encontro final. Foi assim a nossa amizade durou de 1976 até o dia 17 de abril
de 2012 quando recebi a notícia do seu falecimento por telefone da nossa amiga
Aglaé Fontes.
Não poderia deixar de registrar aqui o projeto Contos Populares Brasileiros, com administração cultural de Luiz Antônio Barreto, que na época do seu desenvolvimento era o Superintende do Instituto de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco-Fundaj, que envolveu diferentes instituições culturais do Brasil e de Portugal. Mais uma vez Luiz Antônio me faz uma provocação para mais um desafio o de assumir com o professor e pesquisador Altimar Pimentel a coordenação do projeto na Paraíba. E como resultado do desafio iniciado em 1987, com a supervisão do professor Bráulio do Nascimento, o trabalho foi publicado em 1996 pela Editora Massangana da Fundaj.
O
Encontro Cultural de Laranjeiras, possibilitou e continua possibilitando, nestes
anos todos, significativas reflexões sobre a cultura tradicional na
contemporaneidade, continua contribuindo na formação de jovens estudiosos e
pesquisadores do folclore e da cultura popular brasileira e especialmente
nordestina.
E
assim Luiz Antônio Barreto deixa o seu legado, não só nas importantes
publicações em livros, nos anais dos encontros de Laranjeiras, nos colóquios de
Tobias Barreto, nos seminários de Estudos Medievais, em incontáveis artigos
publicados em jornais, não só como secretário de educação e de cultura, mas
também como incentivador e apoiador de diferentes eventos culturais, organizador
e criador do Instituto Tobias Barreto de Educação e Cultura, uma de suas
maiores paixões.
E
por último deixo aqui a seguinte mensagem de Luiz Antônio Barreto sobre o
encontro cultural como uma demonstração de respeito e admiração que tinha pela
histórica cidade de Laranjeiras e do simpósio cultural:
O Encontro
Cultural de Laranjeiras é um campus avançado de cultura que está ensinando a
pensar o povo e sua existência no tempo histórico e no espaço da região com
suas tipicidades que, em muitos pontos, converge inteira para espelhar o
Brasil. Talvez falte apenas um detalhe:
é a consciência da importância do Simpósio para Sergipe e para a comunidade
intelectual brasileira (citação
do texto: Laranjeiras, a Revisão Religiosa, publicado na edição comemorativa
dos 20 anos do Encontro Cultural de Laranjeiras).
Os
seus livros, artigos, suas ideias, seus conceitos e métodos de pesquisas continuam
atualizados e disponíveis em centros culturais, bibliotecas e redes sociais.
Tabatinga/PB,
outono de 2020.
quinta-feira, 25 de junho de 2020
Eu tenho medo da Covid-19
Com todo respeito: você também?
Entre o caos e o desassossego,
Eixos do mal,
Desordem mundial,
Há tanta gente quilhada.
Com todo respeito
Jorge Palma
(cantor e
compositor português)
Como
pertenço ao grupo de risco, idoso com mais de 70 anos e hipertenso, estou
cumprindo rigorosamente o isolamento social em casa, estou afastado da
afetividade presencial dos familiares e dos amigos, mas acompanhando os
acontecimentos do mundo e aqui do Brasil. E neste isolamento ouvindo a música Com todo
respeito, do grande cantor e compositor português
Jorge Palma, o que me chamou atenção é o conteúdo da letra bastante apropriada
para este período de pandemia. Assim, com todo respeito à Covid-19, vou
continuar em casa e aguardando o final da pandemia.
Sou
professor associado aposentado da Universidade Federal da Paraíba/UFPB, depois
de trabalhar mais de 30 anos, fiz a opção de ficar mais tempo em casa no meu
tempo de ócio, estudando e produzindo os meus trabalhos. No meu isolamento
social, em época de pandemia, não sinto tanta falta do mundo lá de fora. Estou
mais tempo no espaço privado da casa do que no espaço público da rua. Na minha
casa tenho os espaços, as coisas que mais gosto de fazer, sempre ao lado de
Rosinha minha companheira há mais de 40 anos, minha amiga, mãe dos meus filhos
e um ser humano fantástico que tanto amo. Só lamento que nem todos possam dizer
a mesma coisa. O que mais incomoda é o distanciamento dos meus filhos, das
noras e dos netos, que moram longe da gente e tornou-se impossível visitá-los
em época de pandemia.
Portanto,
ficar em casa é um hábito que tenho muito antes das recomendações para evitar a
Covid-19, até porque já não vou com frequência ao cinema, ao restaurante, ao
boteco, nem a eventos culturais e, visitas e festas na casa de familiares e
amigos, só em ocasiões especialíssimas. Em casa estou quase sempre na
biblioteca, na sala vendo televisão ou assistindo filmes, ouvindo rádio, ou fazendo
tudo ao mesmo tempo até porque não sei ler e nem escrever com silêncio. E tem
mais, quando necessário ajudo nas atividades domésticas, são essas coisas que
atualmente mais gosto de fazer e nunca estou de pijama.
Agora
o mundo está vivendo uma nova experiência com o ataque da Covid-19 que se
espalha por quase todas as localidades provocando uma pandemia que marcará para
sempre a história da sociedade humana no século XXI. Como não poderia deixar de
ser o Brasil é também afetado pelo novo coronavirus que está intrigando o mundo
científico, driblando os meios de comunicação social com a desinformação – fake
news – e os demais campos do conhecimento. A Covid-19, uma coisa invisível
a olho nu, está causando grandes estragos nos sistemas de saúde e econômico em
escala planetária.
A
reboque da crise sanitária provocada pela pandemia evidencia-se a fragilidade
das instituições (saúde, educação, cultura, economia, política e tantas outras),
dá mais visibilidade às desigualdades sociais existentes não só nos países
pobres, mas também nos países ricos. E como consequência do processo de
globalização e dos grandes negócios para atender as demandas desenfreadas de
consumo exigidas pela sociedade atual, estamos vivendo, cada vez mais, grandes
crises em períodos mais próximos uns dos outros. Estão cutucando a natureza
com vara curta.
A
pandemia provocada pelo novo coronavirus pegou as pessoas em cheio, no primeiro
momento, as das classes sociais privilegiadas, as que viajavam a negócios ou
turismo e, gradativamente, foi saindo perigosamente do centro para a periferia.
Aí o mundo ficou assustado com o “diabinho” do novo vírus que não é de esquerda
e nem de direita.
A
Covid-19 é democrática, afeta pessoas de todas as classes sociais, não faz
distinção de gênero, cor, faixa etária, ideologia, religião, umas mais, outras
menos, umas ficam curadas e outras morrem nos leitos dos hospitais públicos e
privados, ou mesmo nos leitos de suas casas. O novo coronavirus infecta quem
está mais próximo e mais vulnerável. O que não é democrático são as
alternativas de atendimento para a maioria das pessoas contaminadas, que ficam
longas horas na fila dos hospitais à espera do atendimento médico ou do acesso
aos respiradores.
Numa
democracia os momentos de crise provocam divergências nas várias instituições
de um país e a crise provocada pela pandemia não é diferente, são intensos os
debates nos meios científicos, especialmente da área da saúde, nos meios econômicos,
nos embates políticos, mas quando a crise provoca o desordenamento gerencial, a
falta de diálogo e de lideranças as consequências são mais devastadoras. É lamentável
o que está acontecendo aqui no Brasil.
A
crise provocada pela Covid-19 tem grandes consequências na economia e afetará a
curto e a médio prazos diferentes países, mas aqui no Brasil, além de queda,
coice, como dizia a minha avó quando o azar é grande demais. Melhor dizendo,
além da crise sanitária e econômica temos o azar de uma crise política grave na
hora errada e desnecessária neste momento em que todos nós somos atingidos pela
pandemia. Pois é, no momento que a tal curva da pandemia ora sobe, ora desce,
aqui o governo federal recomenda uma coisa, os governadores dizem outra coisa,
os prefeitos determinam outra coisa, o poder judiciário não concorda com as
coisas ditas, a OMS afirma que a pandemia na América do Sul ainda não atingiu o
pico e de coisa em coisa, ditas e não ditas, de decretos e mais decretos o Brasil vai caminhando, provavelmente, para
ganhar a tríplice coroa das piores crises conjuntas: sanitária, econômica e política
de 2020. E ainda tem uma quarta crise, a psicológica – do medo – que
atinge pessoas assim como eu, do grupo de risco, que têm medo de sair de casa,
do botão do elevador, do corrimão da escada, de ir ao supermercado, à farmácia,
à padaria, da aproximação de familiares, de amigos, de vizinhos, de espirros, de
tosses e quase tudo que acontece no nosso entorno.
E no vai e vem dessa crise política a crise sanitária prolonga-se e consequentemente a economia do país agrava-se. A crise política é deles, mas contamina todo povo brasileiro.
Estamos sofrendo com essa pandemia, principalmente os marginalizados socialmente. Ou seja, os mais pobres e os invisíveis socioeconômicos. É chegada a hora para soluções e entendimento entre os poderes da república para que todos juntos possam vencer a Covid-19, o nosso inimigo atual. Pois é, não dá mais para esperar, o tempo está passando e a pandemia alongando-se. E com todo respeito, não tenho a minha vida para chafurdo de ninguém. É por isso que continuo procurando o País de São Saruê .
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