sexta-feira, 29 de maio de 2015

O jeito que o brasileiro vê TV esteja onde estiver


O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatista – IBGE, acaba de divulgar os mais recentes indicadores sobre a utilização da Internet, da telefonia celular, sinal digital de televisão aberta, televisão por assinatura e de antenas parabólicas para o uso pessoal em domicílios particulares e permanentes. Os dados foram coletados a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – IBGE/PNAD 2013.


A pesquisa constatou que os brasileiros com 10 ou mais anos de idade acessaram mais em 2013 a Internet por meios de microcomputadores, telefone celular, tablet e outros equipamentos. Ou seja, 85,6% milhões de brasileiros com 10 ou mais anos de idade utilizaram em 2013 a Internet, correspondente a 49,4% da população que busca informações, diversão e entretenimento pela rede mundial de computadores. A pesquisa demonstrou que 80,0% da população, com 10 ou mais anos de idade, que tinha telefone celular é da área urbana e 47,9% da área rural.
São mais de 130 milhões de brasileiros que usam o telefone celular o que corresponde a 75,5% da população. Mas é a televisão que continua sendo o meio de comunicação de maior presença nos domicílios dos brasileiros, alcançando cerca de 97,2% da população do país.
Mas quem ainda usa televisão
Sem dúvida cada vez mais o microcomputador, o telefone celular, o tablet e tantos outros equipamentos tecnológicos já são partes integrantes da vida cotidiana da maioria dos brasileiros. Mas como a minha área de estudo no campo das mídias é mais voltada para a televisão, faço aqui uma resumida análise desse consumo e uso pelos brasileiros, conforme os dados obtidos na pesquisa do IBGE/PNAD – 2013, recentemente divulgada. Devido à sua extensão territorial e às diferenças socioculturais, o Brasil tem várias maneiras, jeitos, espaços e tempos de ver televisão na cidade e na área rural. Aqui ressalto as condições da audiência da TV em algumas das pequenas cidades do interior paraibano e na área rural.


Em 2013, período de realização da pesquisa, dos 65,1 milhões de domicílios particulares e permanentes do Brasil, 63,3 milhões tinham televisão, o que corresponde a 97,2% da população que tem pelo menos um aparelho de televisão em casa. O acesso a TV por assinatura era de 29,5% da população, correspondendo a 18,7 milhões de domicílios, já 70,5% não têm acesso a TV por assinatura, o que vale dizer que 44,6 milhões de domicílios não têm acesso a TV paga.

Quanto ao sinal digital, em 2013 a TV aberta alcançava 19,7 milhões de domicílios, apenas 31,2% dos brasileiros com acesso a essa prestação de serviços. A recepção do sinal de TV por antena parabólica era utilizada por 38,4% da população, desse total 78,3% estava nos domicílios rurais. A maioria dos brasileiros continuava usando nos domicílios as TVs de tubo antigas, mas ainda eficientes.  No total das antenas parabólicas em uso no Brasil 50,7% estavam instaladas na Região Nordeste. Com relação ao uso da televisão por assinatura é o Nordeste que tem o menor percentual, apenas 15%. Portanto, quem faz mais uso das antenas parabólicas são as famílias de menor poder aquisitivo que encontram nesse tipo de equipamento a melhor alternativa de acesso ao sinal de TV com qualidade e com maior quantidade de canais a baixo custo. Não foi por acaso que o Nordeste apresentou o maior percentual de antenas parabólicas nos domicílios das áreas rurais e das cidades interioranas com menos de 20 mil habitantes, onde se concentra grande parte das famílias de menor renda per capita por domicílio. Ou seja, nas cidades rurbanas e nas áreas rurais do interior nordestino. Cidades Rurbanas, aqui usando o neologismo empregado pelo sociólogo brasileiro, Gilberto Freyre, para definir as pequenas cidades com menos de 20 mil habitantes em transição do rural para o urbano mas, que com o jeitinho brasileiro estão interligadas ao mundo globalizado pelos diferentes meios de comunicação: estejam onde estiverem.

Na Paraíba, o estado de referência das minhas pesquisas, os domicílios com sinal digital de TV aberta correspondiam a 26,7%, já aqueles com acesso ao sinal por assinatura o percentual era de 14,1% e os domicílios com antenas parabólica 50,9%. A taxa das pessoas com 10 ou mais anos de idade que possuíam telefone celular chegava a 73%, os estudantes com 10 ou mais anos que usavam a telefonia móvel era de 71,2%, já o uso do tablet nos domicílios não chegava aos 9,1%, mas, o percentual de domicílios que usavam a Internet banda larga fixa era de 71,5%.
A população estimada do Estado da Paraíba em 2014 era de 3.943.885 e, deste total, em janeiro de 2015, 524.822 de famílias eram beneficiárias do programa Brasil sem Miséria, que tem o objetivo de tirar da linha de pobreza as famílias com renda per capita inferior a R$77,00. Portanto, 44,56% da população paraibana distribuída nos 223 municípios, recebe do Bolsa Família um valor médio mensal de R$177,00. Mesmo diante dessas condições de baixa renda per capita, os dados demonstram que é crescente o número de famílias que têm nos seus domicílios equipamentos das novas tecnologias de informação e comunicação – TIC, como aparelhos de TV, de rádio, telefone celular, acesso a Internet, além de outros bens duráveis como geladeira, fogão, micro-ondas, máquina de lavar roupas, motos e tantos outros (Fontes: IBGE/PNAD 2014 – MDS/Ministério do Desenvolvimento Social/2015).
O acesso às novas tecnologias, com mais recursos, com mais alternativas de uso, está diretamente condicionado a uma melhoria de renda da família e consequentemente ao seu poder de compra, mas, adquirir TV com tela fina, telefone celular e até mesmo Internet no domicílio não significa, necessariamente, uma melhor qualidade de vida, é mais uma decisão de prioridade da família. Ou seja, na sociedade de consumo a apropriação das novas tecnologias, especialmente da televisão, continua sendo um ato de grande significação nos domicílios independente da classe social e das condições de habitação, até porque a TV não é mais um dispositivo eletrônico que está na casa, faz parte da casa e da vida cotidiana das famílias brasileiras, onde é quase impossível viver em família e em sociedade sem ver televisão.
Hoje em dia é bastante fácil comprar TV, celular, acesso à Internet até por que são várias as alternativas de aquisição desses equipamentos, as ofertas dos negócios de crediário ou da compra “fiado” nas lojas autorizadas, nos camelódromos, nos negócios piratas e nas feiras de trocas espalhadas pelo país afora onde se pode comprar a baixo custo quase todos esses equipamentos. Mas, até hoje persistem as preocupações sobre a televisão como um dos meios de informação e comunicação, de maior influência nos hábitos e costumes da sociedade com seus efeitos devastadores, alienantes, com conteúdo que quase sempre exibe as mesmas coisas; veicula ideologias dominantes; deforma as criatividades das crianças e adolescentes; que empobrece ainda mais a curiosidade e as opiniões dos adultos; isso tudo, para os mais pessimistas ou apocalípticos. Para os mais otimistas ou integrados a televisão continua sendo um símbolo da modernidade por excelência, que democratiza a informação e o conhecimento.


Será que há razão para essas preocupações entre apocalípticos e integrados? De um lado ou de outro, será necessária vigilância constante sobre a televisão, mas, só se for uma vigilância sem “armas apontadas” para os apocalípticos ou integrados. As preocupações manifestadas com relação ao dualismo do “bem” e do “mal” na televisão são pertinentes, mas devem ser analisadas criteriosamente e não só no achismo ou na transferência de responsabilidades para culpar a televisão por quase tudo de errado e de ruim que acontece na família brasileira. 

A culpa é das novelas que só ensinam coisa errada? A culpa é da televisão pelo crescimento da violência? Será verdade? E qual é o papel da família, da escola, da igreja e de tantas outras instituições civis organizadas que operam como mediadoras da sociedade? O que estamos fazendo para melhorar a recepção dos conteúdos midiáticos. 
Chamo atenção para a importância de uma discussão de corresponsabilidade sobre o consumo e uso da televisão e das redes sociais, que envolva diretamente as famílias e todos os níveis de educação, já que a pesquisa do PNAD 2013, cuja amostragem probabilística inclui pessoas com 10 ou mais anos de idade. Ou seja, aqui no Brasil, crianças, adolescentes e adultos de ambos os sexos são todos constituintes da audiência da televisão.
Os dados demonstrados na pesquisa são referências importantes para se estruturar uma política educacional de tempo integral, uma política de consumo e uso dessas novas tecnologias, especificamente da televisão, do telefone celular e o acesso à Internet. Não basta acessar essa avalanche de conteúdos que recebemos as 24 horas do dia, mas, educar para melhor acessar é papel fundamental principalmente da família e da escola. 
O mundo atual é outro, as mídias estão alcançando os mais longínquos recantos do país e precisamos pensar a sociedade brasileira inserida no contexto global da economia, da educação e da cultura, mas levando em consideração as suas especificidades regionais e  o espirito do local. É essa a realidade em que vivemos, é inevitável, diria até irreversível, a relação direta das mídias com a sociedade, consequentemente com a família a educação e a cultura. 
Os domicílios, das cidades rurbanas ou rurais, são quase sempre pequenos, com sala de visitas, com um ou dois quartos, cozinha, banheiro e terraço, telhado rústico e quase sempre sem forro. São construções de tijolos ou taipa, tipologia que caracteriza a arquitetura interiorana do Nordeste brasileiro. É na sala de visitas, o espaço mais nobre da casa, onde fica o aparelho de televisão e tantos outros equipamentos eletrônicos da modernidade industrial para atender os desejos da sociedade contemporânea. 
O telefone celular, que também é relógio, rádio, máquina fotográfica, câmera de vídeo, calculadora e mais uma série de funções, ora está no terraço, na sala, no quarto, no banheiro, na cozinha, na carroça, no cavalo, na bicicleta, no carro, na moto, na igreja, nas festas, sempre perto do seu usuário. Ou seja, o telefone celular e a televisão são próteses como extensão do nosso corpo, é quase impossível viver sem uma delas. 
Quase sempre o sinal de TV, do telefone celular e o acesso à Internet chega primeiro nas pequenas cidades – cidades rurbanas - mesmo antes das estradas ou das ruas asfaltadas, do saneamento básico, da iluminação pública, da delegacia de polícia, dos hospitais e até mesmo de uma boa escola. 
Os jovens brasileiros entre 10 e 20 anos passam em média mais de quatro horas diárias assistindo TV ou acessando a Internet como meio de diversão e entretenimento (Fonte: Pesquisa brasileira de mídia 2015: hábitos de consumo de mídia pela população brasileira. – Brasília: Secom, 2014). Passam mais tempo na TV, ou na Internet do que na sala de aula (Fonte: www.todospelaeducacao.org.br). 
Os domicílios nas pequenas cidades e nas áreas rurais, não são mais espaços com tempos marcados só pelas datas cíclicas das festas sagradas e profanas da religiosidade popular, do cronograma do trabalho e do lazer com características próprias das famílias brasileiras, antes da chegada da televisão, agora do celular e da Internet. Os espaços e tempos do domicílio, na sociedade midiatizada, são cada vez mais agendados pela hora da televisão determinada pelas novelas das seis, das sete e das nove, pelos programas policiais, telejornais e tantos outros que ocupam esses espaços e tempos durante o dia e a noite, e agora pelas redes sociais nos telefones celulares e tablets. Mesmo assim, os domicílios continuam interligados à cidade e à rua e ao mundo globalizado, porém sem a perda total das suas referências, da vida sociocultural do local onde permanecem os códigos, os valores éticos e morais tradicionais da família.
A televisão, a Internet, os telefones celulares e as redes sociais chegaram e modificaram o comportamento da sociedade humana e não seria diferente com a população brasileira. Mas, os meios de comunicação não têm poder para tanto, de isoladamente transformar uma sociedade para melhor ou pior, é necessário que encontre um campo socialmente fértil, com fatores que favoreçam tais influências e para isso necessitam de uma sociedade frágil em vários aspectos. 
É verdade que os conteúdos das mensagens televisivas provocam significativas mudanças, mas, sempre mediadas por diferentes fatores educacionais e culturais, nunca isoladamente como um instrumento principal dessas mudanças para o bem ou para o mal. O mais importante instrumento de transformação de uma sociedade é sem dúvida a família e a educação. Ou seja, a casa e a escola. Sou um dos otimistas, um dos integrados e vejo avanços significativos no uso das Tecnologias da Informação e da comunicação - TIC no desenvolvimento da sociedade brasileira.
Os registos fotográficos, aqui, são resultado de documentos da pesquisa empírica desenvolvida no período de 2003 a 2011, sobre a recepção da televisão, em diferentes cidades paraibanas, principalmente com menos de 20 mil habitantes, onde estão localizadas as famílias de baixa renda per capita, mas, que são cada vez mais consumidoras, usuárias de bens materiais e simbólicos da sociedade midiática.





terça-feira, 7 de abril de 2015

Religiosidade, vinho e azeite na família Faria Neves

Quando fui a primeira vez a Portugal, em 1986, para conhecer os familiares de Rosinha com quem já estava casado há oito anos e já com os nossos dois filhos, sentia a necessidade de conhecer o lugar onde ela tinha nascido e onde vivem os seus familiares. Foi uma das melhores coisas da minha vida conhecer uma família típica portuguesa, numerosa e que desenvolve até hoje atividades no meio rural e urbano, ou melhor numa área rurbana, aqui usando o neologismo do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre para definir uma área geográfica e sociocultural hibrida entre o rural e o urbano e, sem dúvida, Vilar dos Prazeres se encaixa muito bem nesse conceito.
A economia e a cultura dos Faria Neves, basicamente está concentrada na produção do vinho e do azeite na pequena comunidade de Vilar dos Prazeres e no comércio de artigos religiosos em Fátima, localidades pertencentes ao Conselho de Ourém.
Agora vou contar um pouco da minha história de vida, a minha experiência  nesses mais de 30 anos com a família Faria Neves, de Vilar dos Prazeres, principalmente, do meu aprendizado com eles na maneira de degustar, de participar da produção do vinho e do azeite tradicional da região de Ourém.
Ourém, está localizada ao Norte do distrito de Santarém, fazendo divisa com Leiria, Batalha, Torres Novas, Tomar, Ferreira do Zêzere, Alvaiázere e Pombal, a uma distância de 132 Km de Lisboa, 187 Km do Porto, 12 Km de Fátima e está incluída na rota medieval do Tesouro dos Templários, da Demanda do Graal. O seu desenvolvimento urbano deu-se no entorno do Castelo medieval de Ourém.

Agora em 2014 fechei dois ciclos dessa convivência com os Faria Neves, o primeiro em Fátima, o segundo em Vilar dos Prazeres e entornos do Castelo de Ourém. 
O primeiro ciclo, o do sagrado, está relacionado com as minhas observações das grandes peregrinações de fé ao Santuário de Fátima durante todos esses anos, mais intensamente, em maio (2011), agosto (2013) e outubro (2014), e já registrado aqui mesmo neste blog. O segundo ciclo, o do profano, está diretamente ligado às festas populares, às colheitas das uvas e das azeitonas para a produção do vinho e do azeite. 
São ciclos de atividades dos negócios ligados ao mundo de experiências do não sagrado e ao mundo das experiências do religioso, do mundo do sagrado. São dois mundos que se interligam em campos híbridos entre o sagrado e o profano culturalmente pelos longos períodos da história de Portugal, que vem da Idade Média aos dias atuais. A religião, o vinho, o azeite e o pão são alimentos da alma e do corpo do povo português, por isso estão presentes na maioria das casas e das famílias lusitanas e na família Faria Neves não poderia ser diferente.
Já se passaram quase 30 anos e cada vez que vou a Portugal, mais especialmente a Vilar dos Prazeres, fico encantado com o modo de vida das pessoas que ali vivem. Aprendi com Eugénio Henriques, com Armindo, Quim, Adélio e Antônio (o Tó Faria) o pouco que sei sobre vinho, do vinho artesanal, do vinho caseiro ou melhor do vinho para o autoconsumo ou para vender aos vizinhos e amigos. São longos anos de observações que vão da época da poda, do sulfatar as videiras, da colheita das uvas, enfim, de todo o processo de vinificação até o dia de São Matinho.
Da vindima ao dia de São Martinho no entorno do Castelo de Ourém
O ciclo de produção do vinho, em Vilar dos Prazeres tem início com a poda em dezembro/janeiro, pleno Inverno, e de uma boa poda dependerá a maior e melhor quantidade e qualidade das uvas. Quem faz a poda são os mais experientes da família e essas experiências são quase sempre transmitidas pela oralidade de geração em geração e através de processos horizontais de comunicação – Folkcomunicacionais – compartilhado entre pessoas com interesses comuns. Para conhecer melhor o que é Folkcomunicação acesse a Rede Folkcom.
Assim foi com Eugénio e o seu tio Firmino, assim foi com Antônio Faria (o Tó Faria) e o seu pai Antônio Oliveira Neves, assim foi com tantos outros que conheci em Vilar dos Prazeres que aprenderam a podar as videiras e a fazer vinho com os seus antepassados. Com isso não quero dizer que as novas tecnologias não são importantes na atualidade para uma melhor produção das uvas e do vinho. Fiquei horas observando a prática de Eugénio e do Tó Faria podando cada videira para as deixar moldadas e no ponto certo de produzir boas uvas.
É no início da Primavera que os cachos de uvas ganham formatos, quando chega o Verão, lá em agosto e setembro, as uvas estão com cor, aroma, paladar e prontas para serem colhidas. É hora de agendar a vindima antes das primeiras chuvas do Outono, é hora de convidar os parentes e amigos para a colheita, é hora de trabalho e de muita festa, cada ação é planejada cuidadosamente na organização da vindima.
É importante saber com alguma antecedência quantas pessoas participarão para preparar o lanche e o almoço farto para todos. Na vindima não pode faltar comida nem vinho.
Não cheguei a participar das vindimas, da época do meu sogro Antônio, o Antônio Nabo, de Vilar dos Prazeres, uma referência na comunidade pela prática de podar as videiras e de empregar o método tradicional de fazer vinho. Mas conheci e ouvi de minha sogra, Rosa Faria, histórias das vindimas dos tempos passados, das grandes festas das colheitas das uvas, como eram levadas em grandes cestos para os lagares nos cavalos e carroças de burros, das uvas esmagadas com os pés e depois cuidar do vinho à espera do dia de São Martinho. Mesmo com a modernização, com as inovações tecnológicas, algumas práticas tradicionais continuam em uso nas vindimas, na produção do vinho em Vilar dos Prazeres e no entorno do Castelo de Ourém.
A vindima continua sendo uma importante festa anual de Verão em todo Portugal, das mais modernas quintas e herdades às mais tradicionais adegas familiares. A colheita da uva ainda é um convívio sociocultural de grande significado para a maioria dos portugueses. Para alguns são negócios do turismo, para outros de grande importância econômica, mas a produção do vinho continua sendo um acontecimento de labor e festa da comunidade e da família. Algumas famílias fazem o vinho por hobby ou apenas para manter a tradição dos seus antepassados.
Desta vez, em 2014, em Vilar dos Prazeres e entorno do castelo, participei de várias vindimas e com isso posso dizer que fechei o ciclo de observações da colheita das uvas ao processo da vinificação. A vindima é, quase sempre, uma atividade de compartilhamento entre familiares e amigos. Ou seja, a mão-de-obra na colheita das uvas é uma atividade colaborativa, voluntária, é do trabalho não remunerado monetariamente.
No dia agendado para a vindima, atendendo à solicitação, veiculada e vinculada pelas redes horizontais de comunicação – Folkcomunicação – em que um convida o outro, os parentes, os vizinhos e os amigos pouco a pouco vão chegando a pé, de carro, de moto, de trator, já prontos para o trabalho, com tesouras, cestos, baldes e os demais utensílios necessários para a colheita das uvas.  É um dia de trabalho, mas também de muita festa até porque durante a colheitas os homens e as mulheres cantam, conversam, ficam atualizados dos últimos acontecimentos, contam histórias dos seus antepassados, falam de futebol, de política, da qualidade da uva, do vinho e de tantos outros assuntos. É um momento de muitas conversações, de muita alegria, da santificação de ajudar o outro, até porque eles, provavelmente, serão os próximos beneficiados na colheita de suas uvas.  Em Vilar dos Prazeres, quase todas as famílias têm um pedacinho de terra para produzir boa parte dos seus alimentos e uvas para o fabrico do seu vinho.
O almoço da festa da colheita das uvas oferecido pelo dono da vindima, é um banquete, como não poderia deixar de ser, cujo cardápio é da tradicional culinária portuguesa acompanhado com bom vinho e pão caseiro. Vocês nem imaginam o que é saborear um cozido, uma bacalhoada ou uma jardineira preparada por minha cunhada Judite, irmã de Rosinha, no dia da colheita das uvas no Perrote, a quinta do casal Eugénio e Judite.  É um dia de muito trabalho e que termina em festa na sua adega. Eugénio e Judite, que estão casados há mais de 50 anos, produzem vinho há mais de 30 anos, e no dia da sua vindima a família Faria Neves se reúne quase toda, até mesmo os que moram em Lisboa e outras localidades deixam tudo para ajudar na colheita das uvas.  Participar da vindima no Perrote, é uma tradição na família dos Faria Neves, de Vilar dos Prazeres.

Dia de São Martinho: vai a adega e prova o vinho


Finalizada a colheita é hora de levar as uvas para a adega e iniciar o processo de vinificação, ou seja de prensar as uvas e deixar na fermentação, observada cuidadosamente pelo dono da adega, até o dia de São Martinho, celebrado no dia 11 de novembro. No dia de São Martinho vai a adega e prova o vinho, é mais uma tradição mantida em Portugal e tem lá suas razões.
No dia São Martinho eu estava lá no pé da pipa das adegas do Eugénio e do Adélio para provar o vinho novo. Foi um momento de grande expectativa, a hora de provar o vinho, de saber como está a sua formação, a sua estrutura, a graduação alcoólica, a acidez, o aroma, a cor e os sabores.
No dia de São Martinho o vinho ou a Aguapé têm caraterística e personalidade que indicam as possíveis qualidades que o vinho novo terá. Beber a Aguapé no dia de São Martinho com castanhas assadas é algo sensacional.
Para provar o vinho novo é sempre festa com a participação dos familiares, vizinhos e amigos principalmente aqueles que participaram da vindima. Também são convidados provadores de vinho, aqueles detentores da sabedoria tradicional de prova do vinho, e nessa ocasião são emitidas diversas opiniões sobre a qualidade da bebida. Ou seja, se a “pinga”, se a “pomada” vai ficar boa. Pinga e pomada são denominações dadas ao vinho pelos mais velhos da região.
No dia de São Martinho Eugénio e Judite reúnem familiares e amigos para mais um convívio na sua adega, que é sem dúvida um termômetro, um parâmetro para avaliar a qualidade do vinho novo produzido com as uvas do Perrote. E já espero com água na boca a chegada da próxima vindima, em setembro de 2015.
O vinho medieval de Ourém
No Concelho de Ourém fazer vinho é uma tradição que vem desde a época do Império Romano, mas foi com os monges da Ordem de Cristo que se intensificaram os plantios das videiras e a produção do vinho na região. No século XII o D. Afonso Henriques celebrou vários acordos com os monges dos Mosteiros de Alcobaça e de Tomar para introduzir e difundir o método de fabricação do vinho, que logo passou a ser uma importante atividade econômica e sociocultural em todo o concelho de Ourém e continua até os dias atuais. A produção de vinho em Ourém, ao longo da história vem, de certa forma, resistindo aos grandes avanços tecnológicos, mas gradativamente incorpora métodos empregados em outras localidades no modo de fazer vinhos, o que aproxima o seu vinho dos demais produzidos no país.
Nesses últimos anos, principalmente nos meados do século XX, a produção de vinho para atender a demanda de consumo do mundo globalizado, vem perdendo algumas das características marcantes de cada localidade e ficando muito parecidos uns com os outros. Ou seja, a produção de vinho mundial passou a empregar métodos uniformizados e que deixam de lado aquilo que mais marca e enriquece o produto de uma região, de uma localidade, as suas caraterísticas próprias, diferenciadas de uma localidade para outra e até mesmo de uma adega para outra.
Na região de Ourém, nos anos 80 do século passando, cheguei a tomar em várias adegas, quando visitava as casas dos familiares e amigos, um vinho com um sabor e cor diferente dos demais que até então eu não conhecia.

Foi na casa do Eugénio e da Judite, em agosto de 1986, que provei pela primeira vez um vinho que nem era branco e nem tinto, era um vinho diferente pelo sabor, pela cor e pela graduação alcoólica. E assim fui apresentado ao vinho Palhete, o Vinho de Ourém ou o Vinho Medieval, denominação empregada na atualidade como uma estratégia de preservação do método original de produção de vinho pelos Monges de Cister.  Para melhor conhecer o vinho palhete é interessante a leitura do livro Manual prático do vinho de Ourém, de António Marques da Cruz e António Vieira Lopes, 2004.
Os ourienses ao longo do tempo passaram a consumir cotidianamente mais o vinho tinto do que o tradicional vinho palhete da região que tem maior graduação alcoólica, e aos poucos o palhete passou a ser produzido em menor quantidade, inclusive correndo risco de desaparecer o tradicional método de sua fabricação medieval.
Preocupados com essa situação alguns produtores de vinho da região das encostas da Serra D’Aire e do entorno do Castelo de Ourém, resolveram resgatar o tradicional método de produção do Vinho de Ourém, resistindo à pressão econômica e de sua comercialização e continuaram a produzir o secular vinho palhete, que tem sabor diferenciado incontestável. O vinho vem despertando aos poucos o interesse do bom apreciador de um vinho marcante, com personalidade de um lugar e com as caraterísticas do vinho tradicional só produzido em Ourém.
Graças à persistência desses produtores o vinho Palhete de Ourém ou o vinho Medieval de Ourém, não corre mais o risco de ser esquecido. O método tradicional de produção do vinho de Ourém, com mais de 800 anos, é garantido e regulamentado pela portaria nº 167/2005. O palhete, passou a ter a sua produção protegida pela certificação de qualidade controlada pelos órgãos especializados e sua produção é atualmente controlada desde o cultivo e colheita das uvas até o engarrafamento.
O vinho palhete, tem caraterísticas que definem muito bem a sua origem pela cor rubi aberta como resultado da mistura de 80% da uva branca Fernão Pires e 20% da uva tinta Trincadeira, tem graduação alcoólica em torno dos 14º, sabor marcante e bem definido pelas misturas das duas castas. Ou seja um método empregado só na região de Ourém de misturar um pouco de uva tinta no vinho branco e o resultado dessa hibridização é o vinho palhete.
Para quem não conhece o vinho palhete no primeiro momento aparenta ser um vinho de menor qualidade, mas o paladar aos poucos vai apresentando uma complexidade de informações próprias de um vinho produzido artesanalmente e de sabor diferenciado. Deve ser servido na temperatura entre 12º e 15º, recomendado como acompanhamento dos pratos tradicionais ou do gosto do cliente e é só deixar o vinho aflorar os seus sentidos.
Agora em 2014 degustei bons vinhos medievais, aqui destaco dois, o Abadia dos Tomarães e Quebradas do Castelo. O primeiro é produzido e comercializado pela Divinis – Agroprodutos de Ourém S.A, Quinta do Casal dos Frades – Portugal (www.divinis.ourem.com), e o segundo pela adega Carvalhal da família do senhor Dionísio e Dona Lina. O seu filho Luiz Filipe continua a tradição da família e cultiva produtos rurais da região na sua Quinta do Carvalhal, em Casal Branco, uma pequena Aldeia próxima do Castelo de Ourém. Entre esses produtos estão as uvas Fernão Pires e Trincadeira especialmente cultivadas para a produção do vinho medieval Quebradas do Castelo.
Quem gosta de um vinho diferenciado e vai visitar o Santuário de Fátima, o mais importante destino turístico do Concelho de Ourém, também deve visitar as tradicionais adegas do entorno do Castelo de Ourém.  
Agora fico por aqui mas, o próximo artigo será sobre o azeite e o pão caseiro, também as sardinhadas na quinta-feira, o dia da feira em Ourém. Até lá. 









quinta-feira, 2 de abril de 2015

Cruz Alta no Santuário de Fátima

No momento que celebramos a paixão e morte de Jesus Cristo decidi publicar parte do meu ensaio fotográfico que registra a Cruz Alta situada no Santuário de Fátima, Portugal, um dos maiores centros de peregrinação católica do mundo.
Estas fotos foram feitas em 13 de outubro de 2014, data que encerra anualmente as peregrinações comemorativas das aparições de Fátima, sempre celebradas de maio a outubro.
A Cruz Alta, erguida em 29 de agosto de 2007, é de autoria do artista alemão Robert Schad. Feita em aço corten tem 34 metros de altura e ao nível dos braços tem 17 metros de largura. Encontra-se no adro da Basílica da Santíssima Trindade, no lado oposto à Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

Aproveito esta data para desejar uma boa Páscoa.







quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Maracatu Cambindinha no Carnaval 2015

Nas nossas observações do carnaval de rua encontramos diversas manifestações populares, ou seja um carnaval do jeito que o povo sabe fazer. Nada de blocos com cordas ou abadás que têm um dono ou uma empresa cujo objetivo é ganhar dinheiro. Percebemos que esse carnaval realizado por produtores culturais e empresários gradativamente vai minguando e o carnaval de rua, o carnaval tradicional ganha mais foliões e cresce cada vez mais.
Fizemos mais uma vez um roteiro para registrar o carnaval na divisa do litoral sul da Paraíba com o litoral norte de Pernambuco e saímos de Tabatinga, passamos por Pitimbu, Caaporã e Pedras de Fogo na Paraíba, Goiana e Araçoiaba em Pernambuco. Vimos Maracatus, Boi de Carnaval, Ursos de Carnaval e Caboclinhos.
São blocos organizados por famílias, por comunidades urbanas e rurais da região litorânea dos dois estados, é o Carnaval espontâneo, o Carnaval de rua, tradição passada de geração em geração, de pai para filhos e netos. 

Trincheira de Caboclos de Lança


Araçoiaba, com população em torno de 19 mil habitantes, fica na zona da Mata Atlântica de Pernambuco, a cerca de 38 quilômetros do Recife e 80 quilômetros de João Pessoa, de fácil acesso pela BR 101. Em Araçoiaba na segunda-feira de carnaval acontece uma das maiores concentrações de Maracatus para o encontro da trincheira de Caboclos de Lança, evento que reúne um grande público para assistir ao espetáculo. 

Cauã um aprendiz de Maracatu

Cauã, é uma criança de cinco anos que já dança no Maracatu de Baque Solto Cambindinha, do mestre Dedinha, em Araçoiaba/PE, como aprendiz de Caboclo de Lança e sempre ao lado do pai e do avô demonstra muita desenvoltura nos passos e bailado, encantando a todos. Neste Carnaval 2015, registramos em vídeo e fotos a trincheira do Maracatu Cambindinha, com mais de 100 anos de fundação, convocando os caboclos para entrarem na brincadeira do Carnaval e Cauã era um desses caboclos, como mostra o vídeo.