quarta-feira, 14 de junho de 2017

Com todo respeito às festejas juninas

Parque do Povo - Campina Grande/PB
Estamos em junho, o mês das festas dos santos populares, Santo Antônio, São João e São Pedro, celebradas há centenas de anos pela igreja católica em várias partes do mundo. Andando por aí, nas minhas observações das tradicionais festas religiosas e profanas em diferentes regiões do Brasil e fora dele, registrei vários momentos das festas do ciclo junino e fiquei impressionado com a demonstração de fé dos católicos para com os seus santos de devoção, mesmo com as significativas mudanças por que passam esses festejos, atualmente, proporcionadas pela sociedade midiatizada e da globalização cultural. 
Os tempos e espaços profanos ocupam cada vez mais os territórios das tradicionais festas religiosas em todo mundo católico e nas nossas observações, aqui no Brasil, constatamos que são maiores essas ocupações territoriais do profano nas tradicionais celebrações do catolicismo popular. 
Lisboa - Portugal
Um exemplo evidente são as festas do ciclo junino no Nordeste, quando o dia dos namorados festejado no dia 12 de junho, véspera do dia de Santo Antônio, é mais lembrado e comemorado que o dia 13 de junho, evidentemente que há uma relação direta já que uma das virtudes de Santo Antônio é a de ser casamenteiro, o santo dos namorados o que motiva o aquecimento dos negócios com as trocas de presentes entre os casais apaixonados que, de uma ou de outra forma, faz parte das tradições dos festejos de Santo Antônio. 
Mesmo com o grande interesse da mídia, dos promotores de eventos culturais, dos grandes empreendimentos dos negócios de bebidas, do turismo e do poder público que se apropriam das tradicionais festas populares e as transformam em eventos empresarias ou em seus projetos políticos, podemos perceber que determinados setores da sociedade já estão optando por realizar as suas festas juninas nos bairros, nas ruas e até mesmo em casa com a família como eram realizadas antigamente e como uma alternativa as festas demarcadas em determinados territórios institucionalizados pelos poderes públicos, assim como acontece no Parque do Povo em Campina Grande/PB. 
Ou seja, uma festa espontânea organizada pela comunidade para brincar o São João e uma outra festa, como um mega evento organizado pelos setores empresariais interessados nos negócios comerciais e dos interesses dos políticos. 
Será mesmo verdade que as nossas festas juninas estão cada vez mais parecidas com as festas de rodeio onde predominam as músicas sertanejas? Não posso afirmar isso, agora é dar tempo ao tempo para uma melhor avaliação. 
Mas, com todo respeito, nada contra a música sertaneja, nada contra o forró estilizado ou eletrônico, mas cada qual no seu tempo e espaço. Na atualidade o nosso forró está ficando em segundo plano nas festas juninas, assim um pouco de lado apenas para justificar a participação de alguns artistas consagrados do forró tradicional no palco principal da festa, mas as grandes atrações são as estrelas da música sertaneja e não estou só falando do “Maior São João do Mundo”. 
São João em Braga - Portugal
Com todo respeito, espero que as festas juninas organizadas por empresários promotores de eventos culturais e pelos poderes públicos municipais não enveredam por caminhos que levaram a falência dos carnavais fora de época que se espalharam pelo Brasil afora como um pacote já pronto para vender "igualzinho" em várias localidades sem respeitar as diversidades culturais de cada região e que em pouco tempo cansou, esvaziou o modelo e foi rejeitado pelo povo.
Com todo respeito, nada contra as festas organizadas pelos empresários, pelos poderes públicos ou pela mídia, ao contrário, foram esses segmentos que juntos nos anos 80 do século passado, revitalizaram, instituíram e inventaram um modelo de festa junina tipicamente rural transportando para a área urbana do Parque do Povo, em Campina Grande a segunda maior cidade do Estado da Paraíba e importante polo econômico e sociocultural da região nordestina. 
Registro das Festas Juninas
Com todo respeito, acompanho há anos as festas dos santos populares, Santo Antônio, São João e São Pedro, como sertanejo que sou, mas também como um observador tentando entender os processos de atualização das festas tradicionais. Prova disso são os meus testemunhos publicados nos artigos que escrevo e que estão disponíveis nas redes sociais. 
Portanto, o “Maior São do Mundo”, foi criado como atração turística, como um espetáculo para a divulgação da gastronomia típica da época junina, das crenças e superstições em torno das tradicionais fogueiras acesas em devoção aos santos populares e especialmente para a valorização e divulgação da música nordestina, do nosso forró. 

Com todo respeito, viva o São João!!!

Álbum fotográfico

Fotos: Osvaldo & Rosinha Trigueiro

Quadrilha Junina, João Pessoa-PB

Parque do Povo, Campina Grande-PB

Parque do Povo, Campina Grande-PB

São Pedro, Capela cenográfica -Campina Grande-PB
Festa de São João, Valongo - Portugal

Valongo - Portugal

Valongo - Portugal

Valongo - Portugal
São João, Braga - Portugal
Cabeções no São João de Braga - Portugal

Cabeções no São João de Braga - Portugal

Cortejo - Dança do Rei David, São João de Braga - Portugal
Dança do Rei David
Dança do Rei David - Braga - Portugal
Marchas de Santo António, Lisboa - Portugal

Marchas de Santo António, Lisboa - Portugal

Marchas de Santo António, Lisboa - Portugal

10 comentários:

  1. Muito bom o artigo, Osvaldo. Acho bom que o povo retome suas festas em pequenos arraiais nos bairros e nas casas sem necessariamente se contrapor à grande festa empresarial e midiática. Mas temos que responsabilizar os governantes que apoiam ou produzem essas grandes festas e que parecem relaxar na preservação das tradições, principalmente com relação à autenticidade do forró. A terceirização da festa no Parque do Povo, em Campina Grande, este ano é uma demonstração disso, em que os empresários cederam ao duvidoso gosto da música sertaneja para fazer dinheiro sobre setores do público. A parceria com o empresariado pode ser salutar, desde que sob certos princípios que não destoem de nossas raízes culturais. Henrique Magalhães

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  2. Ah, muito belo ensaio fotográfico.

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  3. Belo texto Prof Osvaldo, esse o estudioso equilibrado e atento que tem tempo conheço, admiro e com quem sempre aprendi. As fotos estão excelentes e tem o foco de Rosinha.

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  4. Muito bom Osvaldo, esse formato de festa junina insiste em não valorizar o que fato são nossas festas e o nosso São João de raiz.

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  5. Muito bom, Professor
    Muito obrigada.
    Sempre muito dinâmico.
    Quem me dera poder trabalhar em Folkcomunicação, mas em equipa.
    Aqui, é muito difícil. Sozinha.
    Eu vou dizendo e divulgando a teoria, fazendo pequenas apresentações, mas sem Grandes Professores como o Professor Trigueiros por perto, fica difícil.
    Beijinhos também à Rosinha
    Zé J. (Lisboa)

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  6. Li todo o seu artigo. Excelente.
    Muito respeitoso e coerente.
    Eu lamentei que as festas estão descaracterizando. Vi que artistas fizeram uma campanha.
    Penso que com essa ganância de ganhar dinheiro e capitalizar tudo ficam mexendo nas representações.
    Não combinam nem de longe esses cantores sertanejos em festas juninas!!!! Espero que as coisas mudem... Porque senão ohhhh coisa sem graça.
    Abraços
    Érica

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  7. Li o artigo, xará; Bem a propósito.
    Osvaldo Travassos

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  8. Parabéns pelo belíssimo texto que postou. O artigo retrata exatamente o que se passa com a Folkmídia, o Folkturismo, resultado de uma festa de caráter folkcomunicacional do interior, do sertão e de públicos marginalizados. Um forte abraço.
    Wo0lfgang Teske

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    1. Caro amigo Teske, obrigado pelo comentário e mais uma vez agradeço por acessar o meu blog. Um grande abraço

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  9. Amigo Trigueiro, seus artigos sempre bons e oportunos. Peço sua autorização para socializá-lo em nosso blog Estação Folclore. Grande abraço a vc e à Rosinha.

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