quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Sesquicentenário de Rodrigues de Carvalho

(Jurista, poeta, historiador, folclorista e membro da Academia Paraibana de Letras)


Foto: Carlos Meira
O Centro de Estudos Jurídicos e Sociais – CEJUS, que tem como seu presidente Dr. José Fernandes de Andrade, promoveu uma série de eventos no ano de 2017 em comemoração ao centenário de nascimento de José Rodrigues de Carvalho, intelectual paraibano de Alagoinha e, agora em 2018, fechando esse ciclo de eventos o CEJUS publicou uma edição especial fac-similar do Cancioneiro do Norte da qual tive a honra de fazer o prefácio e participar do seu lançamento que aconteceu no dia 8 de junho no auditório do CEJUS.

Aqui transcrevo um pouco do que disse sobre a grande obra do imortal da Academia Paraibana de Letras, Rodrigues de Carvalho.  O livro publicado pela política editorial da CEJUS está à disposição de todos os interessados na sede do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais que fica localizado na Av. Rio Grande do Sul, nº 1411 Edifício Rio Tauhá, no Bairro dos Estados em João Pessoa – Paraíba/Brasil.


Prefácio
Cancioneiro do Norte
5ª Edição Fac-similar – 2018


Lançamento 5ª Ed fac-similar do Cancioneiro do Norte
Quando recebi o convite do Dr. José Fernandes de Andrade, Presidente do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais – CEJUS, para fazer o prefácio da quinta edição fac-similar do Cancioneiro do Norte, fiquei com muitas dúvidas para aceitar essa nova empreitada de tamanha responsabilidade. Tentei fugir do compromisso, mas foi impossível recursar o convite do Dr. José Fernandes de Andrade. Depois de uma longa conversa na sua sala no CEJUS fui convencido pela sua demonstração de carinho e da paixão pela obra do conterrâneo de Alagoinha. Comentar uma obra de Rodrigues de Carvalho não é uma tarefa fácil porque ele atuou em várias frentes importantes da produção intelectual: no jurídico, na literatura, no magistério, no folclore, na história, no jornalismo, na política e em tantas outras atividades.

O livro tem prefácios que praticamente esgotam quase tudo que se deseja dizer sobre esta obra, do próprio autor na edição de 1928, do antropólogo e folclorista Diégues Júnior na edição de 1967 e do professor Iveraldo Lucena na edição de 1995. Fazer mais um prefácio seria dispensável da minha parte. Portanto, fiz a opção por discorrer algumas considerações introdutórias sobre a importância do Cancioneiro do Norte para os estudos e as pesquisas da cultura popular e do folclore na atualidade, até porque o livro é uma obra “imorredoura” como bem definhou o intelectual de Alagoinha.
        
Rodrigues de Carvalho deixou como legado uma vasta obra de diferentes gêneros, de significativa importância para a cultura brasileira, mas no campo do folclore se destacou com a publicação do Cancioneiro do Norte, uma obra pioneira, um marco da sua trajetória intelectual. No prefácio da segunda edição publicada na Paraíba em 1928, portanto 25 anos depois da primeira edição publicada em 1903 em Fortaleza, o autor chama atenção para o pioneirismo dos seus estudos e as pesquisas do folclore quando ainda era um tema de pouca importância no meio intelectual, quando diz: a cantiga popular era motivo de chufa, foi dos primeiros livros no gênero. Hoje temos uma prefeita noção do que seja o folclore e a sua importância histórica.

Na virada do século XIX para o século XX, com 37 anos, Rodrigues de Carvalho ao publicar a primeira edição do Cancioneiro do Norte desperta interesses entre os intelectuais brasileiros, quando ainda se ensaiavam os primeiros passos nos estudos e nas pesquisas para a construção simbólica de uma identidade nacional e uma das fontes eram as manifestações folclóricas. Mas, foi ao publicar a segunda edição acrescentada com fatos novos do folclore que ele entra definitivamente no ciclo dos importantes intelectuais brasileiros como: Nina Rodrigues (1862-1906), Silvio Romero (1851-1914), Gustavo Barroso (1888-1959), Mario de Andrade (1893-1945), Afrânio Peixoto (1876-1947), Gilberto Freyre (1900-1987), Melo Morais (1844-1919), Leonardo Mota (1891-19480), Câmara Cascudo (1898-1986), Ademar Vidal (1900-1986) e tantos outros. O Cancioneiro do Norte passa a ser reconhecido como uma obra referência por Luiz da Câmara Cascudo que a inclui na Antologia do Folclore Brasileiro: Séculos XIX-XX, os estudiosos do Brasil, bibliografia e notas e Florival Seraine na Antologia do Folclore Cearense.
 
Não podemos esquecer que no momento da publicação do Cancioneiro do Norte, o Brasil passava por grandes mudanças políticas, sociais e econômicas, que refletiam significativamente na produção cultural do país, inclusive nas tradições populares e no folclore. Nos primeiros anos do século XX a etnografia, a linguística e a antropologia ganhavam espaço e tempo como campos de estudo e de pesquisa, consequentemente se inicia uma sistematização científica na documentação das tradições populares e do folclore, até então considerado um campo de estudo desprovido de maiores critérios metodológicos.

Participou do 1º Congresso Afro-Brasileiro - 1º CAB, realizado no Recife em novembro de 1934 como Presidente da Comissão de Folclore, coordenou a sessão de debates sobre o Folclore/Arte; no artigo sobre “Aspecto da Influência Africana na Formação Social do Brasil” publicado no segundo volume dos anais do 1º CAB, Rodrigues de Carvalho cita uma das várias versões da lendária cantoria entre Romano de Mãe d’Agua e Inácio da Catingueira, realizada na cidade de Patos em 1870 e publicada no Cancioneiro do Norte na primeira edição de 1903. Mais uma vez aparece o pioneirismo do autor que inovou levando para o debate no 1º CAB os desafios, as cantorias cujas temáticas eram quase desconhecidas entre os estudiosos da época.
O congresso presidido pelo sociólogo Gilberto Freyre reuniu estudiosos de diferentes regiões, provocando polêmicas na jovem academia, na imprensa e divergências ideológicas nos diferentes segmentos da intelectualidade brasileira. Os debates, as conferências e as sessões temáticas no congresso sobre as questões da negritude, da mestiçagem e do sincretismo despertaram novos olhares sobre as tradições populares e do folclore, que passaram a ser estudados com maior rigor científico. E como já dito anteriormente, não mais visto como motivo chufa, mas como uma perfeita noção do que seja o folclore e a sua importância histórica para a construção simbólica de uma identidade brasileira com bases teóricas lideradas por Gilberto Freyre.

Manuel Diégues Júnior, no prefácio da edição comemorativa do centenário de nascimento do autor do Cancioneiro do Norte, publicada em 1967, ressalta a importância de Rodrigues de Carvalho e de suas obras ao afirmar:

Conheci pessoalmente Rodrigues de Carvalho em novembro de 1934, por ocasião do Congresso Afro-Brasileiro, do Recife; participamos, ele como Presidente, eu como Secretário da Comissão de Folclore naquele Congresso que a iniciativa de Gilberto Freire fizera reunir, com a colaboração de especialistas os mais variados: médicos e bacharéis, professores e estudantes, folcloristas e babalorixás. Já o conhecia então de nome; e de livro.    

A preocupação do autor em desenhar uma cartografia das manifestações folclóricas, foi uma demonstração do seu pioneirismo com uma visão futurista sobre a diversidade das manifestações culturais tradicionais e do folclore como: a religiosidade, as festas, as danças, os folguedos, as canções, as poesias e tantas outras expressões do povo. No percurso desenvolvido sobre a manifestação folclórica do Bumba-Meu-Boi em diferentes regiões do país, Rodrigues de Carvalho, pontua cada singularidade dessa manifestação na sua localidade, na cidade ou na roça, assim como observou o espetáculo do Bumba-meu-boi: Pelas cidades o boi perde a sua graça primitiva; na roça, porém, a coisa toma proporções de acontecimento notável. Nesta observação do Bumba-Meu-Boi é como se o autor previsse o possível desenvolvimento deste folguedo em transição do rural para o urbano. Ou seja, saindo da periferia para o grande centro como um espetáculo híbrido, como acontecimento de grande repercussão cultural.  
    
No Cancioneiro do Norte o autor chama atenção para os estudos das narrativas populares, escritas ou orais, que se cruzam nos versos e nas palavras de origens portuguesa, africana e indígena e que as definiu como narrativas de espécime de hibridismo. Rodrigues de Carvalho registra vários exemplos de narrativas populares (contos, cantos, lendas, fábulas, etc.), onde há o hibridismo dos três elementos já entremeados de tantas outras influências, o que torna sem maiores significações estudar isoladamente as suas origens. As observações, até fora do seu tempo, com relação ao que seria o universo simbólico de construção da identidade nacional, com uma visão mais ampla sobre a influência das diversidades culturais brasileiras, de certa forma, divergiam dos paradigmas predominantes na época.

Mais uma vez recorro ao magnifico prefácio de Diégues Júnior ao afirmar que: 

O hibridismo etnológico, referido por Rodrigues de Carvalho, traduz-se justamente nesta mistura em que, embora se possa indicar a fonte originária, não se pode estabelecer a sua exclusividade. É com absoluta razão, antecipando-se aos modernos estudos de regionalização cultural do Brasil, que o velho folclorista de 1903 procurava caracterizar as produções folclóricas por zona, e não por etnia; o que ele via na zona, aliás numa antecipação a modernos estudos, era justamente o elemento cultural em contato, produzindo pela fusão ou absorção dos elementos originais novos elementos, marcados pela feição do ambiente. 

Portanto, não só foi um dos pioneiros dos estudos do folclore como antecipou, nas primeiras décadas do século XX, teorias atuais dos estudos latino-americanos, quando emprega o termo hibridismo, e não exclusivamente os termos de sincretismo ou mestiçagem para definir os amplos processos de intercâmbios das diversidades culturais tradicionais. O primeiro termo por se referir quase sempre às questões raciais e o segundo quase sempre às questões religiosas.

Rodrigues de Carvalho faz o seguinte questionamento: Como afirmar se o canto A de origem europeia, a canção B indiana, a chula C africana, se o meio em que se recolhem tais produções é o resultado de um manifesto hibridismo etnológico?

Para justificar o uso do termo “hibridismo etnológico”, o autor ressalta a importância dos estudos comparativos dos valores culturais que constituem as tradições populares brasileiras, que atravessaram centenas de civilizações ao longo dos anos, de geração em geração e foram adaptando-se aos nossos costumes, onde a tradição se transfunde ao longo do tempo.  

Faço aqui um outro questionamento: talvez Rodrigues de Carvalho tenha empregado o termo hibridismo, já no início do século XX, antevendo os processos de dinamizações das culturas tradicionais e das culturas contemporâneas tão debatidas, tão polemizadas nos estudos e nas pesquisas atuais entre culturas midiáticas e culturas populares. Evidentemente levando em consideração a época que foi publicada a primeira e a segunda edição aumentada do Cancioneiro do Norte.

Rodrigues de Carvalho teve a preocupação de registrar os problemas das secas, do ciclo do cangaço e de outras temáticas socioculturais que eram motes nas cantorias, nos versos dos poetas populares e nos enredos dos folguedos para demonstrar que não existia uma tradição cultural, mas uma diversidade de manifestações tradicionais que se espalham nas diferentes regiões do território brasileiro e que continuam atualizando-se. Como ele mesmo diz no final do seu prefácio: Este livro não representa uma ambição literária, nem aspira à glória de obra limpa; ele significa um esforço por bem da intelectualidade anônima dos filhos do Norte.

Ao reeditar Cancioneiro do Norte depois da publicação em 1995 pelo Conselho Estadual de Cultura, o CEJUS, não só presta uma justa homenagem ao seu autor como também possibilita que novas gerações possam conhecer o trabalho pioneiro dos estudos e das pesquisas desenvolvidas por Rodrigues de Carvalho na virada do século XIX para o século XX.

É importante dizer que a edição fac-similar do Cancioneiro do Norte, que agora em 2018 é publicada pelo CEJUS, continua atual como referência bibliográfica, para quem deseja conhecer os primeiros registros do nosso folclore e realizar estudos comparativos sobre os hibridismos etnológicos na atualidade. 

terça-feira, 12 de junho de 2018

Santo Antônio: tenente-coronel celestial e casamenteiro

Foto do autor
Esses são só alguns dos atributos de Fernando Martim de Bulhões, o nome de batismo de Santo Antônio, um dos santos mais populares dos festejos juninos, aqui no Brasil e em Portugal. Talvez um dos mais celebrados do panteão cristão em quase todas as partes do mundo. Nasceu em Lisboa provavelmente no ano de 1190 e faleceu com cerca de 40 anos no dia 13 de junho de 1231.

A sua morte provocou grande comoção popular e o Papa Gregório IX o canonizou em 1232, menos de um ano do seu falecimento, porque a igreja tinha pressa em satisfazer os desejos dos devotos do santo polivalente. E a Igreja determina que 13 de junho, data da sua morte, passaria a ser celebrada no calendário litúrgico com festas religiosas e profanas em homenagem ao santo padroeiro dos casais apaixonados e das causas perdidas. 

O papa Leão XIII assim definiu Santo Antônio como o “Santo de todo mundo”, por reconhecer a sua popularidade na grande devoção e piedade popular espalhada por várias partes do mundo cristão. 
  
Considerado um dos doutores da igreja, profundo conhecedor da teologia e reconhecido por Roma como um grande orador que impressionava multidões com os seus sermões. Da ordem dos frades Franciscanos Menores, percorreu países onde destacou-se com os seus trabalhos missionários em Portugal, Itália e principalmente no sul da França, liderando importantes embates religiosos e ideológicos na tentativa da conversão ao cristianismo dos praticantes das heresias dos Cátaros. Foi um peregrino que percorreu diferentes localidades da Europa, da África pregando a palavra de Deus com o objetivo de converter povos pagãos ao cristianismo. Frei Fernando de Bulhões, tinha grande capacidade de mobilização das pessoas par ouvirem a sua palavra e juntava multidões por onde passava. Depois de sua morte a fama de santo milagreiro só cresceu ainda mais mundo a fora.   
Foto de acervo do autor
Nas viagens marítimas nos séculos XVI, XVII e XVIII dos grandes descobrimentos espanhóis e portugueses a devoção a Santo Antônio chegava às novas terras. A partir do século XIX a distribuição de pães no dia de Santo Antônio passou a ser uma prática da piedade popular em diversas partes do mundo inclusive aqui no Brasil como ação social aos mais pobres. 

O Frei Antônio de Lisboa e Pádua, tinha o dom da oratória e usava como estratégia de comunicação nas suas pregações a animação cultural, a conciliação das famílias, a paz e o amor. Esse foi um dos motivos que levou o santo a ser invocado para resolver problemas terrenos como causas perdidas, proteção dos militares nas frentes de batalhas, como advogado dos bons casamentos, contra os malefícios dos inimigos e tantas outras invocações. 

Era um frade alegre, brincalhão, humilde, prestativo, sempre estava à disposição do seu povo e era uma espécie de topa tudo no atendimento aos fiéis, mesmo sendo um profundo conhecedor da teologia. Conhecia muito bem a sabedoria popular e com isso nas suas pregações rompia o tom melancólico predominante na Igreja. 

Foto de acervo do autor
Em Portugal é considerado o santo dos lisboetas e como aqui no Brasil também é considerado um santo casamenteiro, festejado pelos namorados e noivos que sobem os altares paras as cerimônias de casamentos.  Em Lisboa, os 12 e 13 de junho são dias de grandes festas populares nos bairros da capital lusitana e as Marchas de Santo António desfilam em sua homenagem, por toda a Avenida da Liberdade, no centro da cidade. É sem dúvida uma das maiores festas populares de Lisboa.

Santo Antônio, protetor das moças e rapazes, das viúvas e dos viúvos desejosos de encontrar um amor perfeito para casar, também foi político e militar de alta patente. No Brasil, Santo Antônio já chegou a ser vereador perpétuo na cidade histórica de Igarassu, localizada na área metropolitana do Recife, capital do Estado de Pernambuco, com direito a receber os seus vencimentos do poder legislativo municipal, o equivalente a um salário mínimo mensal, cuja ordem de pagamento só foi suspensa em 2008 por interveniência do Ministério Público do Estado de Pernambuco. Mas não é só isso, ele foi muito mais. 

Transparências nas vitrines de Sto Antonio
Amadeu Amaral no seu livro Tradições Populares, 1976, registra a importância de Santo Antônio como um militar de alta patente em vários batalhões brasileiros devido à sua intermediação como santo protetor dos bravos soldados nos campos de batalhas.
Santo Antônio – o santo dos grandes milagres – foi tenente da Fortaleza de Santo Antônio dos Coqueiros, patente concedida pelo Conselho Ultramarino em 1717. Em 1710 entra para milícia do Rio de Janeiro com a patente de capitão. Dom João VI o promoveu a tenente-coronel no ano de 1814 e, posteriormente, com membro da Ordem de Cristo.

O santo taumaturgo português no catolicismo popular desde a Idade Média é ligado a centenas de crenças, superstições, feitiçarias e cerimônias que são realizadas na véspera do seu dia com a finalidade de alcançar algum pedido que possa desenrascar os problemas dos milhares de devotos.

Viva Santo Antônio

Fotos do arquivo pessoal do autor.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Lançamento da nova edição de "Cancioneiro do Norte"

O CEJUS - Centro de Estudos Jurídicos e Sociais, em João Pessoa/PB lança a 5ª edição (Fac-simile) do "Cancioneiro do Norte", com prefácio de minha autoria.
A programação de lançamento terá início às 17 horas desta sexta-feira (8/6), no CEJUS, localizado na Av. Rio Grande do Sul, 1411, Ed. Rio Tauhá - Bairro dos Estados, João Pessoa-PB.

Observe os detalhes da programação:




quarta-feira, 21 de março de 2018

A Rede Folkcom e o Centenário de Luiz Beltrão


A comunidade acadêmica das Ciências da Comunicação celebra em 2018 o centenário de nascimento de Luiz Beltrão, jornalista, professor e pioneiro nas pesquisas em Comunicação Social no Brasil. Beltrão nasceu na histórica cidade de Olinda no Estado de Pernambuco no dia 8 de agosto de 1918, mas não vou descrever aqui o vasto perfil do fundador da teoria da folkcomunicação porque dispensa apresentação.

Luiz Beltrão será homenageado numa das mesas temáticas na XIX Conferência Brasileira de Folkcomunicação – Folkcom 2018, que será realizada em Parintins-AM nos dias 25, 26 e 27 de junho no período do festival folclórico, da grande festa dos bois Garantido e Caprichoso, em plena floresta Amazônica. O Folkcom 2018, tem como objetivo reunir professores, pesquisadores, estudantes e o público interessado nos diferentes processos de transformações e de atualizações da comunicação nas culturas populares. Durante o evento científico em Parintins, serão realizadas diferentes mesas temáticas e oficinas que possibilitarão aos participantes refletir sobre o desenvolvimento dos estudos e das pesquisas no campo da folkcomunicação no contexto sociocultural brasileiro e latino-americano. Eu, como não poderia deixa de ser, estarei presente nos principais eventos científicos que celebram o centenário do mestre Beltrão: junho em Parintins no Folkcom, julho em Juazeiro da Bahia no INTERCOM/Nordeste e setembro em Joinville no Estado de Santa Catarina no 41º Congresso Brasileiro de Comunicação/INTERCOM.
  
Como conheci Luiz Beltrão  

Aproveitando as homenagens a Luiz Beltrão, não posso deixar passar em branco este momento para contar do pouco, mas importante tempo de convivência pessoal, recebendo alguns aconselhamentos para os avanços teóricos e práticos nos estudos e pesquisas da folkcomunicação, além da aproximação com a sua vasta referência bibliográfica.  
Foi através do professor Roberto Benjamim, em 1974, quando era seu aluno na graduação de jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco e assistente nas pesquisas em comunicação e cultura popular, que conheci Luiz Beltrão. Até aí não conhecia a folkcomunicação, mas já tinha feito uma breve incursão no campo da comunicação e do folclore depois de ter lido os textos publicados na revista Comunicação & Problemas. O primeiro, de Luiz Beltrão “O Ex-Voto Como Veículo Jornalístico” que é sem dúvida um dos textos fundadores da teoria da folkcomunicação e o segundo, de Luís da Câmara Cascudo “Carta Sobre o Ex-voto”. O artigo de Cascudo foi um endosso importante para que Luiz Beltrão aprofundasse as bases da folkcomunicação, demostrando seu interesse e entusiasmo com as ideias de Beltrão sobre a comunicação e a cultura popular, enxergando uma nova frente de estudos e de pesquisas no campo da comunicação, aqui no Brasil. E quem se interessa pela folkcomunicação sabe perfeitamente que esses artigos foram fundamentais para o desenvolvimento da teoria fundada por Luiz Beltrão. Os textos recomendados por Roberto Benjamim abriram novos horizontes e não tive dúvida que algo de novo emergia no campo da pesquisa em comunicação e na cultura popular.  

Os estudos e as pesquisas que estávamos desenvolvendo na segunda metade dos anos de 1970 e início dos anos de 1980 tinham como objetivo compreender o impacto da cultura de massa na cultura popular e no folclore e, principalmente, nos conteúdos da televisão que chegavam aos mais longínquos recantos do Nordeste brasileiro. Havia uma grande preocupação, nos meios acadêmicos e nos meios dos folcloristas, com o provável desaparecimento das culturas tradicionais e do folclore provocado pelas invasões dos novos consumos e novos costumes veiculados pela televisão e principalmente pelas novelas.
  
A cultura de massa e a indústria cultural eram sinônimos de culturas alienantes e devastadoras das culturas regionais e locais e, como não poderia deixar de ser, eu também fazia parte do time que acreditava que com os avanços da cultura de massa e da indústria cultural, seria o fim das nossas culturas tradicionais e do folclore o que provocaria o seu “extermínio”. Mas, com os ensinamentos e os aprendizados de Roberto Benjamim e com os contatos com Luiz Beltrão passei a ver que nem tudo estava perdido.

Foi nesses encontros que tomei outros rumos, outras observações para compreender que as tradições culturais populares e o folclore, nos diferentes períodos da história, passaram e continuam passando por importantes ressignificações operadas pelos seus agentes (inter)mediadores, capazes de modificarem os conteúdos da cultura de massa e que as culturas regionais e locais não eram apenas sobreviventes a tudo isso, até porque há uma diversidade de manifestações tradicionais vinculadas a religiões, a festas, aos trabalhos e à economia local. Portando, foi estudando e pesquisando a folkcomunicação que comecei a enxergar que não existia uma única tradição, mas diferentes manifestações culturais tradicionais, passadas de geração a geração e com suas diversidades de expressões passei a compreender, a interpretar as ressignificações das culturas populares e do folclore e os processos de atualizações no contexto da cultura de massa.

Com a orientação de professor Roberto Benjamim, caímos em campo percorrendo cidades, vilarejos e áreas rurais dos estados de Pernambuco e Paraíba, os dois territórios das nossas pesquisas e aqui e ali uma invasão em territórios do Rio Grande do Norte.

Nesse período desenvolvíamos duas frentes de observações e de recolhimento de dados de bens culturais materiais e imateriais. Uma frente sobre as festas religiosas e profanas com foco nas festas do Ciclo de Nossa Senhora do Rosário e nas festas do Ciclo do Carnaval, a outra frente nos locais de peregrinações populares e suas respectivas casas de milagres onde são deixados os ex-votos. Foi uma experiência magnifica para um jovem iniciante. Posteriormente, esse material deu origem a uma série de publicações, inclusive a minha dissertação de mestrado e a tese de doutorado[1].

Não foram tempos fáceis para levantar alguns questionamentos contrários às tendências teóricas predominantes no meio acadêmico. Melhor dizendo, as culturas tradicionais não desapareceriam com a invasão da cultura de massa e com a indústria cultural, até porque os agentes populares não eram consumidores passivos dos bens culturais veiculados, principalmente, pela televisão como apregoava o núcleo duro dos seguidores da teoria da Escola Frankfurt. Nós, seguidores da folkcomunicação, ficamos entre a cruz e a espada, de um lado o patrulhamento ideológico dos frankfurtianos que nos rotulava de funcionalistas e de outro pelos folcloristas conservadores que não aceitavam os processos de atualização das manifestações culturais tradicionais em tempo de grandes mudanças sociais e tecnológicas.

Foi um período de recuos, de avanços, mas também de novas conquistas no campo de estudo e pesquisa da folkcomunicação[2]. Não era fácil romper os paradigmas reinantes nos anos de 1980, quando defendi a minha dissertação de mestrado e não concordava com a recepção passiva da audiência aos conteúdos da comunicação de massa. Defendi a minha dissertação sem ter acesso a obras de pesquisadores como Jésus Martín-Barbero, Guillerme Orozco, Jorge Gonzáles, Néstor Garcia Canclini, entre outros. Mas comungava com o pensamento de Luiz Beltrão, que já naquela época percebia e chamava atenção para a existência de uma ampla rede de comunicação cotidiana, pela qual os grupos populares operam as suas interações (inter)mediadas, quase sempre por negociações do sistema de folkcomunicação. No meu doutorado, com a orientação do professor Antônio Fausto Neto, a “coisa” já era muito diferente e os caminhos foram abertos para o desenvolvimento da pesquisa teórica e empírica com base nos autores que citei e na folkcomunicação. Os tempos eram outros e não mais existia o patrulhamento dos que acreditavam na passividade dos constituintes das audiências na recepção, principalmente dos programas televisivos.
 
O legado de Luiz Beltrão na Paraíba

Em 1976, já como professor da Universidade Federal da Paraíba/UFPB encaminhei à Pró-reitora para Assuntos Comunitários/PRAC e à Coordenação de Extensão/COEX um projeto para promover o I Encontro de Folclore da Paraíba, que foi aceito imediatamente e o evento se realizou com grande repercussão e muitos desafios para época em que vivíamos. Durante o encontro reunimos importantes estudiosos e pesquisadores da comunicação e da cultura popular e, atendendo ao nosso convite, Luiz Beltrão foi um dos conferencistas.

O I Encontro de Folclore da Paraíba, aconteceu em outubro de 1976 na cidade de Pombal durante o período da Festa de Nossa Senhora do Rosário que é tradicionalmente celebrada no primeiro domingo do mês.

Pombal está localizada no semiárido paraibano cerca de 380 quilômetros de João Pessoa e, com os nossos convidados, viajamos de carro por mais de cinco horas eu, Roberto Benjamim, Bráulio Nascimento (a época diretor da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro), Altimar Pimentel (professor da UFPB), e Luiz Beltrão. Foi uma viagem inesquecível do litoral ao sertão trocando informações sobre comunicação e folclore. Nos dias que ficamos na cidade de Pombal, realizamos vários encontros paralelos à programação oficial do evento, inclusive com coparticipação do então Pró-reitor da PRAC professor Iveraldo Lucena, e nesses encontros surgiram as primeiras ideias para a criação do curso de comunicação social e de um setor para pesquisar e documentar a cultura popular e o folclore na Paraíba. 


A conferência de Luiz Beltrão sobre O Folclore como sistema de comunicação popular[3] foi sem dúvida a grande novidade do encontro de folclore e estimulou ainda mais o propósito da criação do Curso de Comunicação Social. Pouco tempo depois do encontro em Pombal, reencontrei Luiz Beltrão no II Encontro Cultural de Laranjeiras, realizado em janeiro de 1977 na histórica cidade sergipana, onde, mais uma vez , fez a conferência sobre O Folclore como Discurso[4], uma abordagem sobre a semiologia e folclore, que foi mais um estímulo às minhas pretensões de estudar a comunicação e o folclore num período que a cultura de massa e a televisão se consolidavam como indústria cultural dos entretenimentos  e do turismo no Brasil.
Os professores Luiz Beltrão e Roberto Benjamim tiveram participações importantes na elaboração e implantação da Divisão de Estudos do Folclore e da Comunicação criada logo em seguida ao I Encontro de Folclore e que depois veio dar origem ao Núcleo de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular – NUPPO. Fui pesquisador e coordenador dos dois setores por alguns anos e com toda a equipe realizamos seminários, congressos, pesquisas, exposições, cursos, oficinas e tantos outros eventos técnicos científicos promovidos pela PRAC/COEX/UFPB.
Em maio de 1977 coordenei, como chefe da Divisão de Folkcomunicação/COEX/UFPB, a primeira exposição de ex-votos na UFPB. Em julho de 1979, já como Coordenador do Núcleo de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular/NUPPO/COEX/UFPB, realizamos o simpósio: Os diversos aspectos do ex-voto do qual participei como um dos expositores com a conferência: O Ex-voto como veículo de comunicação popular, com referências fundamentadas nos artigos de Luiz Beltrão e Câmara Cascudo[5].


Luiz Beltrão, sempre teve uma forte ligação com a Paraíba, nos anos de 1950 como militante da Associação de Impressa e do Sindicato dos Jornalistas em Pernambuco colaborou na estruturação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais da Paraíba. Como professor participou ativamente da elaboração e criação do primeiro Curso de Jornalismo em João Pessoa que funcionou de 1957 a 1964, no Instituto Nossa Senhora de Lourdes. Portanto, conhecia bem a importância de um curso de Comunicação Social na Universidade Federal da Paraíba/UFPB.



Fui membro da comissão que criou o Curso de Comunicação Social da qual faziam parte, entre outros professores, os ex-alunos de Luiz Beltrão: Arael Menezes da Costa, no curso de Jornalismo da Faculdade Nossa Senhora de Lourdes em João Pessoa e Altimar Pimentel, no Curso de Comunicação Social do Centro Unificado de Brasília/ CEUB.
Luiz Beltrão e Roberto Benjamim eram constantemente consultados na elaboração do currículo básico, inclusive na ementa e conteúdo da disciplina Folkcomunicação da qual fui o primeiro professor. O curso foi criado em 1977 e reconhecido pelo Conselho Federal de Educação em 1979.

Em novembro de 2006 o Departamento de Comunicação e Turismo da Universidade Federal da Paraíba e o Programa de Pós-Graduação em Comunicação/PPGC/UFPB, realizaram um seminário de caráter científico e cultural sobre O Pensamento Comunicacional de Luiz Beltrão no Ensino da Comunicação no Brasil: a presença de Luiz Beltrão na Paraíba[6]

O seminário teve como objetivo celebrar a presença do professor e pesquisador pernambucano na Paraíba. O evento aconteceu 30 anos depois da realização do I Encontro de Folclore da Paraíba. 


Portanto, o pouco mas importante tempo de contato pessoal com Luiz Beltrão chega ao seu final quando, em 1980, o visitei em sua residência em Brasília e, recebido por ele e por sua esposa dona Zita Beltrão de Andrade Lima, no final do nosso encontro ganhei do mestre da folkcomunicação o seu livro Folkcomunicação: a comunicação dos marginalizados, com a seguinte dedicatória: Ao Osvaldo Meira Trigueiro, pesquisador da sabedoria do povo com a estima de Luiz Beltrão. Brasília, 1980.


E assim foi a minha convivência pessoal com Luiz Beltrão, experiência que continua viva com as lembranças e com suas obras referenciais em ciências da comunicação.





[1] A dissertação de mestrado orientada por Roberto Benjamim: A audiência da TV Globo em duas comunidades rurais da Paraíba, defendida em 1987 na Universidade Federal Rural de Pernambuco/UFRPE. A tese de doutorado orientada por Antônio Fausto Neto: Quando a televisão vira outra coisa, defendida em 2004 na Universidade do Vale do Rio dos Sinos/UNISINOS.
[2] Leia o prefácio de José Marques de Melo do livro, Osvaldo Meira Trigueiro. Folkcomunicação & ativismo midiático. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2008.
[3] Ver a publicação: Documento NUPPO/UFPB - ano 1, n. 1 - João Pessoa, 1979
[4] Ver Anais comemorativos dos 20 Anos do Encontro Cultural de Laranjeiras – Aracaju – Governo do Estado/SE.
[5] Ver a publicação: Documento NUPPO/UFPB - ano 1, n. 2 - João Pessoa, 1979.
[6] Ver artigo de Trigueiro, Osvaldo Meira, In: Luiz Beltrão: pioneiro das ciências da comunicação no Brasil/José Marques de Melo, Osvaldo Meira Trigueiro, organizadores. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB; INTERCOM, 2008. P. 171-1776.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Brasileiro na etapa final do Festival da Canção Portuguesa

O cantor e compositor brasileiro Pierre Aderne está na etapa final do Festival da Canção Portuguesa um dos mais importantes da Europa.  É a primeira vez que um cantor e compositor brasileiro chega à final desse importante festival promovido pela Rádio e Televisão Portuguesa – RTP1, que é transmitido ao vivo para várias partes do mundo e especialmente para os países de língua portuguesa. Pierre, que é filho de português e da brasileira Laís Aderne, ex-professora do Departamento de Artes da Universidade Federal da Paraíba, passou boa parte da sua adolescência aqui em João Pessoa. Com a sua mãe foi morar em Brasília, depois no Rio de Janeiro onde consolidou a sua carreira como cantor e compositor e desde 2011 mora em Lisboa. Pierre, é um cidadão do mundo nasceu em Toulouse na França quando seus pais, professores universitários, faziam cursos de especialização. Também tem a cidadania portuguesa, mas continua com um pé aqui no Nordeste e fincado nos torrões paraibanos. Por onde passa faz questão de lembrar a influência da cultura nordestina na sua formação musical e sempre destaca a importância de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Jackson do Pandeiro.  

 Com “Bandeira Azul” música de Tito Paris, importante cantor e compositor cabo-verdiano e letra de Pierre Aderne eles chegam ao segundo lugar numa semifinal da etapa do festival e agora aguardam a etapa final que será no dia quatro de março na cidade histórica de Guimarães, Portugal.
Pierre, define “Bandeira Azul” como uma celebração: é a vitória da música cantada em português, uma alegria para todos os países que falam a língua portuguesa”. A letra narra uma história de amor, de um povo separado pelas águas do Atlântico, mas ao mesmo tempo muito próximo pela língua que une culturalmente. A letra de Pierre Aderne é uma convocação para uma reflexão nesses tempos de muita intolerância e violência que se espalham pelo mundo.

Só para estar perto de ti viajei
Tantas noites madrugadas esperei
do teu lado encontrei meu pais
onde a bandeira é o amor
e a língua, ser feliz
nas manhãs vive a certeza desse amor
no verão tu és a brisa, dezembro calor
quando ganho teu abraço sou fortaleza
minha rua ganha estrelas
minha vida, beleza

Bandeira Azul, interpretada pela cantora portuguesa Maria Inês Paris, filha de um cabo-verdiano e de uma portuguesa, toca nossos corações sem a apelação aos sentimentos exagerados, mas que culturalmente aproxima pessoas que falam a mesma língua.  “Bandeira Azul” tem grandes chances de chegar ao primeiro lugar do Festival da Canção Portuguesa e disputar o Eurovisão, considerado o maior festival da canção do mundo, que este ano se realiza em Portugal, pela primeira vez. Aqui estamos torcendo para "BandeiraAzul", de Tito Paris com parceria de Pierre Aderne e interpretação de Maria Inês Paris. 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Encontro Cultural de Laranjeiras e o seu 43º ano

O Encontro Cultural de Laranjeiras talvez seja um dos eventos de estudo da cultura popular brasileira de maior longevidade no Brasil. Há 43 anos acontece sem interrupção, entra governo sai governo, em tempo de crise econômica, chova ou faça sol, o encontro sempre acontece na histórica cidade de Laranjeiras no estado de Sergipe. 
A cidade está localizada na região Metropolitana de Aracaju, é de fácil acesso por automóvel ou transporte coletivo e fica a cerca de 20 quilômetros do centro da capital de Sergipe.
Laranjeiras é um museu a céu aberto, como gostam de dizer orgulhosamente os seus habitantes, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN desde 1996. A cidade é banhada pelo rio Cotinguiba, na sua margem estão localizados o Trapiche e o Mercado, é cercada de igrejas e casarões coloniais que contam a sua história econômica e cultural.
Participei, agora em janeiro de 2018 como convidado da organização do encontro, fazendo uma palestra com o tema: As festas tradicionais e os diferentes processos de atualização. Foi uma honra tomar parte do 43º Encontro Cultural de Laranjeiras ao lado de professores, pesquisadores, mestres e brincantes dos grupos folclóricos de Sergipe.   
Ao longo dos anos o encontro foi ampliando o seu espaço para divulgar Laranjeiras como uma cidade detentora de importantes patrimônios culturais materiais e imateriais. Um dos principais objetivos do encontro é reunir estudiosos e pesquisadores da nossa cultura popular para conhecer de perto as manifestações dos grupos folclóricos, as igrejas, os casarões, o mercado, o trapiche e as ruas históricas de cidade. Sem dúvida foram os encontros culturais que projetaram Laranjeiras no cenário nacional. Assim como disse Luiz Antônio Barreto:
Quando a somação do Governo do Estado com a Prefeitura Municipal, apoiada pela então Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, Laranjeiras foi a destinatária de um conjunto de ações, em torno do I Encontro Cultural, como a restauração da velha Casa de Laranjeiras e instalação do Museu Afro Brasileiro de Sergipe, iniciando uma série de restauros que devolveu ao uso público monumentos sociais, como o Mercado da cidade, o Trapiche, a Casa da Câmara, bem como recuperou ruas de calçamento de pedra, enquanto pavimentou outras, tornando melhor o piso da cidade. Com o Encontro Cultural de Laranjeiras Sergipe foi grande beneficiado, porque foram gravados, pela primeira vez, os sons dos grupos folclóricos e editados discos, livros, cadernos de folclore, dando visibilidade a um variado elenco de grupos, cada um com sua característica (artigo publicado em 01/01/2000/Infonet).
 O Encontro Cultural de Laranjeiras não pertence só ao povo sergipano é um patrimônio de todos nós, é uma sala de aula aberta aos estudiosos, pesquisadores, aos mestres e brincantes das manifestações das culturas populares. Como afirmou Bráulio Nascimento:
Na verdade, não é possível falar do desenvolvimento dos estudos da cultura popular no Brasil sem passar por Laranjeiras. Muitas ideias aqui expostas e debatidas constituíram o núcleo de trabalhos de maior fôlego, que motivaram e estimularam debates em outros pontos do País, em outros contextos culturais (artigo publicado em 2005 nos 30 anos do Encontro Cultural).
No encontro de 1977 cerca de 200 grupos estiveram presentes durante a realização do evento e Laranjeiras passou a se chamar, simbolicamente a capital do folclore brasileiro no mês de janeiro.
A reunião de estudiosos, pesquisadores brasileiros e estrangeiros colocou Laranjeiras no centro das atenções, dos debates e discussões sobre os antigos e novos paradigmas de estudos e pesquisas da nossa cultura popular que se espalharam mundo afora, possibilitando publicações de artigos, dissertações, teses e livros, que atualmente estão disponíveis na mídia impressa e nas redes sociais.
Quando Luiz Antônio Barreto, com a colaboração de estudiosos e pesquisadores da cultura sergipana, idealizou o encontro em 1976, que aconteceria durante o período da Festa dos Santos Reis, teve como propósito levar para Laranjeiras importantes nomes de estudiosos e pesquisadores da cultura popular e das artes brasileiras, para testemunharem as apresentações dos grupos folclóricos e a simbologia da festa religiosa de coroação da Rainha das Taieiras na igreja de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, cerimônia religiosa que há mais de cem anos acontece na cidade histórica no início de janeiro.
A partir daí não só Laranjeiras, mas o Estado de Sergipe entra no calendário cultural brasileiro como referência dos estudos e das pesquisas folclóricas.
Nesses 43 anos de realizações, passaram pelo encontro importantes personalidades de reconhecimento nacional e internacional. Para conferir basta consultar as publicações comemorativas que reúnem textos apresentados nos 20 e nos 30 anos de realização.
A professora e pesquisadora Aglaé Fontes, à época Secretária Especial da Cultura do Estado de Sergipe, na apresentação da publicação dos 20 anos, diz: 
Ao longo dos 20 anos O Encontro Cultural de Laranjeiras, vem se constituindo um foco de resistência cultural em defesa do folclore. Com as mais diversas formas de ver, pesquisadores e estudiosos da cultura popular, apresentam, a partir de temas, informações e aprofundamento de estudos, que fazem do simpósio um fórum aberto das discussões de ideias (texto de apresentação da publicação dos 20 anos do encontro). 
No discurso de abertura oficial do 20º encontro o então prefeito de Laranjeiras Hans Otto Hagenbeck na sua fala em defesa dos grupos folclóricos afirma:
Laranjeiras volta mais uma vez ao clima de festa, que transpira de um encontro com a dimensão do que, pela vigésima vez, passa a acontecer na nossa cidade. Temos a honra e grata alegria de não só recepcionarmos os ilustres participantes, como também a todos que aqui estão presentes; cujas participações dignificam um acontecimento que já deitou suas raízes por todo o Brasil, e além-fronteiras. A trajetória dessa promoção que se repete no início de cada ano, vem se consolidando ao longo do tempo. Turistas e visitantes aqui chegam, com a finalidade de sentir de perto a força do folclore animando o espírito popular de nossa gente, repassando uma imagem positiva de um povo que não deixou sucumbir o que lhe há de mais tocante: a sabedoria passada de geração a geração.
Mais adiante já no final do seu discurso o prefeito Hagenbeck ressalta a importância da cidade de Laranjeiras como um grande palco de manifestações folclóricas:
Durante os próximos três dias, Laranjeiras deixará de ser apenas uma cidade comum para transformar-se no grande palco das manifestações folclóricas que aqui vão desfilar. Que a grandeza da sua gente humilde e acolhedora possa receber a todos de abraços e coração abertos. Muito obrigado (publicado nos anais do XX Encontro Cultural de Laranjeiras, 1995).
O atual prefeito de Laranjeiras, Paulo Hagenbeck e a atual Secretária Municipal da Cultura, Maria Gardênia Hagenbeck na apresentação do programa cultural do 43º encontro dizem que:
Desde seu surgimento o Encontro Cultural de Laranjeiras dedica-se a promoção da Cultura popular, construiu um caminho articulado de estudo, pesquisa e exercícios das manifestações culturais. O Encontro Cultural de Laranjeiras é considerado um dos maiores desse país nesse segmento, sendo um evento consolidado nacionalmente e internacionalmente. 
Mais adiante continua:
Queremos desejar boas vindas e saudar a todos que fazem essa festa acontecer, turistas, comunidade laranjeirense e sergipana, artistas culturais e musicais regional e nacional, colaboradores no geral. Saudações especialmente aos brincantes da nossa cultura popular que protagonizam e reverenciam o folclore da cidade de Laranjeiras.
O tema central do encontro deste ano foi: Nosso palco é a rua, mas os camarotes e os palcos patrocinados pela administração municipal é que tomaram conta das ruas de Laranjeiras para apresentações de shows artísticos predominantemente de cantores e cantoras de músicas que estão nas paradas de sucessos midiáticas. Nada contra qualquer gênero de música e de show artístico, mas cada qual no seu tempo e espaço.
O tempo e o espaço do Encontro Cultural de Laranjeiras, das manifestações dos grupos folclóricos, da Festa de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário celebrada no dia de Santos Reis devem ser respeitados pelas autoridades civis e religiosas. O volume alto do som dos palcos abafava as falas dos conferencistas e dos debates que se realizavam no simpósio, além de abafar as músicas e danças dos grupos folclóricos, como mostram os vídeos no final do texto.
Mas assim mesmo a Taieira, a Chegança e o Cacumbi saíram em cortejo, no domingo pela manhã, rumo à igreja de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário para participar da missa de coroação da Rainha da Taieiras, percorrendo as ruas desviando ora dos automóveis, ora dos palcos instalados nas esquinas, nas praças e até no meio das ruas, numa verdadeira caminhada de obstáculos até chegarem à igreja. Mesmo assim o padre, interrompendo a tradição, não coroou a Rainha da Taieira como deveria. Mas, o protesto de Bárbara, a mestra do grupo, da comunidade presente na missa fez com que a rainha fosse coroada conforme manda a tradição da festa.
Com os cantos, as músicas abafadas pelos sons estridentes dos palcos os grupos continuavam em cortejos, assim como forma de interpelação ao menosprezo do poder público e, teimosamente, demostrando que a resistência é a força da cultura popular.
Ao contrário do discurso das atuais autoridades administrativas da cidade os protagonistas não foram os grupos folclóricos, não foram os mestres e brincantes da cultura popular laranjeirense e sergipana.
Portanto, no 43º Encontro Cultural de Laranjeiras os mestres, os brincantes e os grupos folclóricos tiveram na festa um papel, lamentavelmente, de coadjuvantes. O que estamos assistindo na realidade nos últimos anos dos encontros culturais é como se existissem duas festas distintas, uma com palcos com a parafernália eletrônica de som e iluminação espalhados pelos pontos principais da cidade para as apresentações de shows artísticos e outra periférica que é a festa religiosa e as manifestações dos grupos folclóricos.
Aqui, constrangidamente, quero deixar um pouco do meu desencantamento, até da minha indignação, com o que presenciei agora em Laranjeiras no encontro de 2018. O meu depoimento tem o olhar de quem testemunhou e participou da maioria desses 43 anos de realização do encontro cultural, desde o primeiro em 1976, quando tinha acabado de sair da universidade e, com certeza estive presente em mais de 30 dos 43 já realizados. Portanto, acompanhei, continuo acompanhando e posso afirmar que participei dos momentos mais importantes da história do Encontro Cultural de Laranjeiras, assim como diz Luiz Antônio Barreto em artigo publicado:
Quem vem, anualmente, a Laranjeiras para trocar ideias, trazer novas apreciações, atualizar as referências e as bibliografias renova o compromisso. Foram muitos, algumas dezenas ao longo do tempo, alguns dos quais sempre voltam, enraizados no interesse de compreender melhor o fenômeno da cultura popular. Três desses heroicos partidários dos Encontros Culturais – Bráulio do Nascimento, Roberto Benjamim e Osvaldo Trigueiro – o mestre, o professor e o estudante de 1976 se tornaram, nas últimas décadas, nos mais acreditados produtores culturais brasileiros (Infonet, 2002).
Não se trata de heroísmo, como disse amigavelmente Barreto, mas de acreditar numa proposta de projeto de estudo e de pesquisa, e, por crer em tudo isso sempre priorizei nos meus compromissos a participação no Encontro Cultural de Laranjeiras deste a época de Luiz Antônio Barreto aos dias atuais com tantos outros heroicos companheiros.
Portanto, pelos encontros culturais passaram importantes personalidades brasileiras e estrangeiras que deixaram as suas marcas, as suas referências e seus ensinamentos para formação de gerações e gerações de novos estudiosos e pesquisadores e me incluo entre eles.
Sou muito grato por tudo que apreendi nas exposições e debates do encontro como também pelo que aprendi e continuo aprendendo com os mestres e brincantes dos grupos folclóricos que se apresentam nas ruas e nas igrejas de Laranjeiras. Enquanto há vida há esperança e espero uma outra atitude das autoridades laranjeirenses na retomada do projeto inicial do Encontro Cultural.