quarta-feira, 4 de maio de 2011

Os Caretas do Sítio do Judas em Olho D’Água na Paraíba

Com a chegada dos colonizadores portugueses ao Brasil, veio junto uma diversidade de manifestações culturais e entre essas as da Semana Santa, sem dúvida uma das mais expressivas do nosso calendário religioso e profano do catolicismo popular. A quaresma tem início na Quarta-feira de Cinzas, logo em seguida ao Carnaval e vai até o domingo de Páscoa, período em que havia uma vigilância cerrada da igreja nas realizações das festas, por ser um período de abstinência para os católicos e, como a igreja exercia um grande poder na sociedade, a desobediência era falta grave e em consequência os que desobedeciam poderiam sofrer pesados castigos.

As autoridades, a igreja e setores organizados das elites brasileiras fizeram de tudo para proibir as manifestações da malhação de Judas no sábado de Aleluia, mas não conseguiriam acabar totalmente com essas expressões culturais por que de uma ou de outra forma o povo dava um jeitinho de fazê-las. Com a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil em 1808, essas manifestações populares foram bastante perseguidas no Rio de Janeiro, por ordem do Rei preocupado com as possíveis criticas a coroa portuguesa. Somente por volta de 1831 aparecem os movimentos liberais dando apoio à livre manifestação popular e a malhação de Judas volta a ter visibilidade nas ruas dos grandes centros urbanos, aí sim, com maior intensidade nos seus protestos. Portanto, a malhação de Judas é uma antiga tradição dos povos ibéricos até hoje presente na nossa cultura, evidentemente, atualizando-se e acompanhando a inovações ofertadas pela sociedade midiatizada.

Mas o propósito deste artigo é registrar a malhação de Judas na zona rural de Olho D’Água no sertão da Paraíba. O município que fica a 371 quilômetros de João Pessoa, na Microrregião do Piancó, com população de 7.831 habitantes, sendo 3.495 na zona urbana e 4.336 na zona rural, é um município híbrido do rural e do urbano constituído de valores culturais tradicionais característicos do sertão paraibano, mas interligado ao mundo globalizado pelas novas tecnologias da comunicação. 

Em 1981 com a colaboração de Rosa Trigueiro e Eduardo Nóbrega pesquisadores da UFPB registramos na fazenda Muselo naquele município a brincadeira, assim chamada pelos seus organizadores, da malhação de Judas ou os Caretas do Sítio de Judas.

A brincadeira é quase sempre realizada nas fazendas, na noite da Sexta-Feira Santa para o sábado de Aleluia, no terreiro das casas, recebendo dos respectivos proprietários a licença para malhar o Judas. Um grupo de moradores da redondeza percorre as localidades próximas pedindo prendas para a quebra do jejum da quaresma e como manda a tradição quem nega a doação poderá ter problemas no resto do ano e no final do dia a comissão tem arrecado boa quantidade de alimentos, bebidas e objetos que são armazenados na casa onde outro grupo confecciona o boneco de Judas secretamente para não ser roubado. 

O Sitio de Judas é um circulo cercado de mato, também chamado de curral, com uma entrada de três metros e no centro é erguido um mastro de aproximadamente oito metros onde é dependurado o boneco de Judas, na base é colocado um carro-de-boi ou mesmo uma grande mesa para depositar todas as doações. Os Caretas são soldadosmascarados que vão proteger o Judas dos invasores que tentam, a todo custo, roubar o Judas e as doações antes da meia-noite do sábado de Aleluia. Os Caretas vestem roupas de saco de estopa como uma espécie de surrão, barulhento, assim como o surrão do Maracatu, máscara de couro ou papelão com bigode e sobrancelhas de crina de cavalo para dar uma aparência de coisa grotesca e sua arma é um chicote de couro entrançado com um objeto contundente na ponta. Outra personagem marcante na brincadeira é a Catirina a mulher de Judas e quase sempre está grávida e faz o povo rir com as suas estripulias. Seu personagem lembra a Catirina do Bumba-meu-boi. É uma luta entre o bem e mal que dura até a meia-noite do sábado de Aleluia e os invasores, que são os do bem, sempre levam a melhor. Quando acontece a invasão do curral o boneco de Judas é derrubado e esquartejado e com as doações de comidas e bebidas a festa rola a noite inteira com o forró-pé-de-serra. 

A dramática condenação dos acusados pelo Tribunal do Santo Ofício ainda se encontra simbolicamente nas manifestações do catolicismo popular no sertão nordestino. Não seria o Sitio do Judas uma dessas representações simbólicas medievais ou da folclorização do campo de sangue comprado por Judas com o dinheiro ganho para trair Jesus? As roupas usadas pelos Caretas lembram, de certa forma, os sambenitos usados nos rituais de condenação dos considerados hereges pela inquisição. A malhação de Judas nas zonas rural e urbana de Olho D’Agua é uma manifestação cultural popular que persiste nos espaços do município, mas que vem incorporando valores culturais da sociedade contemporânea, até como forma de resistência ao tempo do mundo globalizado pelas novas tecnologias de comunicação.
Em 2010 voltamos a Olho D’Agua para mais uma observação da Malhação do Judas, desta vez com a colaboração de Mário Leite, um desses animadores culturais da localidade. Mais uma vez pudemos compreender que as sociedades tradicionais não são estáticas estão constantemente em processos criativos e inovadores das suas manifestações culturais populares.


Um comentário:

  1. Já brinquei de Judas aí em O D''''''''água no tempo em que o Júdas era morto a tiros de revolver...

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